terça-feira, 28 de setembro de 2010

A Cidade das Mulheres

Lázaro Faria

SINOPSE

O filme Cidade das Mulheres é uma resposta à Ruth Landes, antropóloga norte-americana que, no ano de 1939, esteve na Bahia pesquisando a raça negra e se surpreendeu com a força e a soberania que as mulheres do candomblé exerciam numa organização matriarcal. Seu pensamento será um dos fios condutores deste documentário, ilustrado por imagens das festas populares e dos cultos afr...icanos, das famosas mães de santo e da beleza exuberante da cidade de Salvador.

Cidade das Mulheres apresenta Mãe Estela, Yalorixá do terreiro Axé Opó Afonjá – um dos mais antigos e conceituados da Bahia, que vai contar a história do candomblé e a história da sua própria vida. Num belíssimo depoimento, mostrando o quanto está à frente do seu tempo, Mãe Estela discute o matriarcado, a força das mulheres e o sincretismo no Brasil. Por fim, ela fala do futuro e da esperança que tem na continuidade e na força do candomblé.

Permeando o pensamento de Mãe Estela estarão antropólogas, sociólogas, teólogas, mães de santo, comerciantes, enfim, as baianas, que irão enriquecer e fundamentar o seu discurso. O documentário vai mostrar a mulher do povo, a baiana do acarajé, a baiana comerciante da feira, a baiana empresária, como é sua vida e o que é ser baiana nos dias de hoje.

O documentário Cidade das Mulheres faz um panorama da identidade visual e cultural dessas baianas que, através das gerações, criaram um mito, deusas que atuam e interferem no quotidiano da cidade. Um símbolo de resistência, dignidade e, sobretudo, beleza.

JUSTIFICATIVA

No final dos anos trinta, a antropóloga Ruth Landes chegou ao Brasil, com a intenção de estudar as relações raciais no Brasil. Ao tentar comparar o racismo no Brasil e nos Estados Unidos ela se deparou com duas realidades diferentes, porém não menos exclusivistas. Os negros no Brasil não eram discriminados somente pela cor da pele, eles eram mantidos na ignorância e na miséria. Aos pobres restava a religião, o candomblé, que naquela época era proibido e perseguido.

Ao voltar para os Estados Unidos, discretamente expulsa do país por seus estudos sobre o candomblé, Ruth Landes lança o livro “Cidade das Mulheres”. Ela relata com clareza e com certo espanto, a força da baiana, essa mulher que inventou no Brasil um sistema matriarcal inédito, desenvolvido em torno do culto aos orixás, onde o poder é da mãe. Através das obrigações com os santos as mulheres foram para os mercados, tomaram as ruas com suas comidas e seus trajes exóticos, o que possibilitou sua liberdade econômica.

Cidade das Mulheres vem homenagear a força dessa mulher através de Mãe Estela, Yalorixá do terreiro Axé Opó Afonjá, símbolo maior de dignidade e doação, uma vida dedicada ao seu povo. Sua história, sua filosofia e seu legado estarão preservados através dos seus depoimentos. O principal objetivo deste documentário é mostrar o poder dessas mulheres, confirmar o matriarcado baiano com a afirmação de que a Bahia é a Cidade das Mulheres.

Título: A CIDADE DAS MULHERES
(ATLANTA PREMER)
Gênero: Documentário
Cidade e Ano: Brasil, 2005 
72 minutos
Diretor:Lázaro Faria
Produtores:
Cleo Martins
Direção de Fotografia: Lázaro Faria
Edição: Isabella Lago
Música:Cleo Martins

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Hip Hop Lutarmada e as Eleições...

Galhardetes, baners, faixas, carros de som, panfletagem profissional, promessas, mentiras, acusações e bravatas. De 2 em 2 anos somos submetidos autoritariamente a esse martírio. A propaganda oficial diz sobre o seu Direito ao voto. De acordo com Marilena Chauí “a função do Direito é fazer com que a dominação não pareça uma violência. Se o Estado e o Direito fossem percebidos como instrumentos de dominação, os dominados se revoltariam”.  E hoje o que fazem os partidos, inclusive os de esquerda? Se valem desse Direito ao voto para disputar espaço no Estado. E reparem que no caso das eleições, sob as cortinas do Direito se esconde uma obrigação. Se a pessoa com idade eleitoral resolve não votar, ela estará obrigada a uma multa ou será submetida a punições que trarão transtornos à sua vida social e pessoal. Ou seja, o que se propagandeia como um direito seu, na verdade é uma imposição.
As candidaturas de esquerda muitas vezes são justificadas com o argumento de que o Estado é um fato que independe da nossa aprovação como militantes, e que por isso devemos ocupar esses espaços com nossos representantes para serem um contra-ponto aos políticos de direita. Começamos aqui denunciando a possível ingenuidade que há em acreditar nisso. Para quem concorda que O Estado é o comitê executivo da burguesia, é um tanto quanto equivocado levar a nossa luta para um campo onde a burguesia tem mais força. Pela experiência acumulada nesses dinâmicos anos de “democracia”, percebemos que “nossos representantes” não ocupam espaços no aparato do Estado. Eles são, sim, consumidos, tragados, abduzidos pelo Estado.
Se os partidos surgem como forma de organizar o povo para a luta, esse propósito se desvirtuou com o tempo. Hoje, em função das eleições, os partidos não só abdicam da organização da luta popular, como desorganizam algumas iniciativas em construção. Em primeiro lugar ninguém seria leviano em negar que em período de eleição não há luta, a não ser por votos. Toda a esquerda, inclusive a que não é cúmplice disso, é pautada pelo processo eleitoral (vide o atual insucesso do Plebiscito Popular Pelo Limite da Propriedade de Terra, pro qual já se sabe, teve uma participação bem inferior aos plebiscitos anteriores ). Numa segunda análise nota-se que algumas organizações passam um período de 1 ano e meio em suas bases num trabalho de formação sob um alerta de Karl Marx de que “A emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”. Até que a campanha eleitoral começa e boa parte da esquerda atravessa o nosso caminho dizendo que “o seu voto pode fazer a diferença”.
Com tanta gente falando sobre o voto como caminho para o progresso, a justiça social e a paz, e como a defesa do processo eleitoral está presente tanto no discurso da direita como no da maioria esmagadora da esquerda, como o grito de “vote” ecoa bem mais e em maior volume do que o grito de “lute”, por fim as bases se convencem de que a emancipação dos trabalhadores será obra... do “meu representante” no congresso, na assembléia, na câmara municipal, e no palácio do governo. Só que como a máquina de propaganda (e compra de votos) da direita é infinitamente mais forte do que a da esquerda, a grande maioria dessas pessoas convencidas a votar, votam em conditat@s de partidos conservadores. Isso fica difícil de ser enxergado por uma esquerda distante das “comunidades baixa-renda”. Porém, mesmo de longe isso pode ser constatado quando se observa que quase a totalidade de moradores dessas comunidades que se candidatam, o fazem por partidos de direita. Esse é o resultado do desserviço prestado pela esquerda partidária, que legitima a perpetuação de nossos inimigos no poder.
Numa das primeiras paginas da tão comemorada constituição de 1988, consta que “todo poder emana do povo (...)”, mas, por exemplo, na esfera federal, 15,5 bilhões do nosso dinheiro foram gastos saldando a dívida do Estado brasileiro com o FMI; no Estado do rio, com um déficit de aproximadamente 10 mil professor@s, o governo gasta R$ 45 milhões com carros e helicópteros blindados para a sua polícia, em maior segurança, atirar em cabeça de pobre; no Rio, a prefeitura proibiu a utilização de escolas municipais para a realização de cursos pré-vestibulares comunitários. Cursos esses que capacitaram muit@s jovens de periferia a prestar, com sucesso, um vestibular que nem deveria existir. Se o poder de fato emana do povo e se o povo é diretamente afetado com tais medidas, por que o povo não pode debater e decidir?
Alguns militantes de partidos de esquerda dizem que o voto nulo, hoje, no Brasil é despolitizado. Podemos até concordar com isso, mas a mesma coisa pode se afirmar sobre o voto válido: sua esmagadora maioria se baseia em critérios os mais variados e absurdos que não o histórico, a orientação e plataforma política de cada candidat@. Para ilustrar tal fato basta ver a projeção de votos para o candidato a deputado em São Paulo, Tiririca, cujo slogan é “Vote no Tiririca. Pior do que tá não fica”. E esse processo de deseducação política do nosso povo tem enorme colaboração dessa esquerda que promove campanhas como “Fora Sarney”, “Fora Arruda” e outras semelhantes, atacando um sintoma da nossa sociedade e não a sua estrutura. Por que? Seria por que não é interesse implodir uma estrutura da qual querem se beneficiar? Em artigo publicado em junho deste ano
 ( http://metamorfozesnacidade.blogspot.com/2010/06/uma-outra-politica-e-possivel.html), o sociólogo Antonio Ozai dá a sua opinião sobre essa questão: “cada vez mais aumenta o número dos que passam a viver da política. A missão revolucionária, viver para a política, é sutilmente substituída pela dependência econômica em relação ao aparato burocrático do partido e do Estado”.
Para @ polític@ honesto da esquerda que quiser de fato combater a corrupção na nossa política, o primeiro passo deveria ser não emprestar a credibilidade de seu nome a um jogo que permite a ascessão ao poder de figuras como Collor, Sarney, Maluf, Arruda, Álvaro Lins, Celso Pita, José Dirceu e tant@s outr@s.  Também não se sustenta o argumento de que pode se votar no candidato X para impedir que o candidato Y se eleja. A dinâmica da política institucional é muito suja. Os opositores de hoje “num toque de mágica” amanhã se tornam aliados. Um bom exemplo era a polarização entre PP e o PT, principalmente em São Paulo. Essa prática de votar para excluir funcionou até 2003. Quando o PT chega à presidência o PP – que já se chamou PDS, PPR e que tem origem na Aliança Renovadora Nacional (ARENA, partido de sustentação da ditadura de 1964) – se alia ao antigo rival. Como dissemos, o jogo é sujo.
Respeitamos todas as formas do povo organizar a luta contra-hegemônica. E se criticamos a atitude dos partidos que disputam eleições é porque acreditamos que essa não é uma forma de organizar, mas sim, o contrário, ela desorganiza a nossa classe para a luta.
Então, não é só pelo que representa o Estado; não é só pelo impacto negativo que o processo eleitoral tem sobre as organizações populares; não é só por legitimar o poder exercido pelos nossos inimigos de classe; não é só pela corrupção d@s que são eleit@s; não é só pela sangria de militantes das ruas para o aparato burocrático, tanto do Estado quanto dos partidos; não é só pelo fato de esse modelo institucional usurpar o poder que deveria emanar do povo. É por tudo isso junto que nós do Coletivo de Hip Hop LUTARMADA acreditamos que o caminho que nos levará ao socialismo não passa pelas eleições. É por isso que nós defendemos o voto nulo.

Inspirad@s nos Black Panthers,
TODO PODER AO POVO.

Coletivo de Hip Hop LUTARMADA.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Presos políticos mapuche recusam a mesa de diálogo anunciada pelo governo

[Os mapuche rejeitaram ontem [segunda-feira], a mesa de diálogo anunciada pelo governo chileno e afirmaram que não vão parar a greve de fome que já passa de 72 dias.]
"A mesa é apenas uma manobra comunicacional do governo para convencer a opinião pública de que está disposto a conversar", disse a uma rádio local Rodrigo Curipán, porta-voz dos grevistas encarcerados na cidade de Angol. Os familiares dos 34 mapuche em greve de fome também se juntaram às críticas contra La Moneda [sede da Presidência da República do Chile]. "A oferta do governo não resolve nada", disparou Natividad Llanquileo, porta-voz dos presos que mantém o jejum na prisão de Concepcion. "O governo não nos convidou e, além disso, não estamos interessados, o que nos interessa é resolver a greve. Nós acreditamos que eles (o Executivo) estão brincando com a vida dos comuneros", acrescentou. "Eles vão definir a sua mesa de diálogo que não representa ninguém além de si mesmos. Além disso, eles estão interessados em confundir a opinião pública", reclamou Llanquileo.
Por seu lado, Eric Millán, porta-voz das famílias dos presos mapuche em Temuco, informou que o governo de Piñera tenta mostrar que o problema será resolvido. "Não temos recebido nenhuma chamada, por isso não vamos sentar à mesa", disse o porta-voz. Millán anunciou que o protesto vai continuar até as últimas conseqüências, se não houver a retirada das acusações contra os comuneros pelo cometimento de atos terroristas.
Durante as celebrações do bicentenário, o presidente chileno anunciou um diálogo amplo com as comunidades mapuche, que começaria hoje na cidade de Temuco. A promessa foi conversar e ouvir as reivindicações históricas dos povos indígenas em relação à posse da terra, cultura e integração social. No entanto, a oferta do presidente não inclui as organizações indígenas mais radicais ou representantes dos reclusos que estão em greve de fome há quase três meses. Os presos mapuche se consideram presos políticos e exigem que não lhes sejam aplicadas a chamada Lei Antiterrorista. Esse instrumento jurídico data da ditadura de Pinochet (1973-1990) e permite o duplo processamento nos tribunais civis e militares. 

O crescimento da xenofobia na Europa

O primeiro ministro italiano, Silvio Berlusconi, mostrou seu apoio ao presidente francês, Nicolas Sarkozy, em sua política de deportações de romenos e búlgaros de origem cigana. Durante uma reunião com senadores, Sarkozy manifestou que “não haveria nenhum” problema se os luxemburgueses quisessem acolher os ciganos. O presidente respondia assim às críticas da comissária de Justiça, Viviane Reding, que é de Luxemburgo, e que comparou as deportações com os fatos ocorridos durante a Segunda Guerra Mundial. Um alto funcionários dos Estados Unidos disse que “é preciso convidar a França e outros países a respeitar os direitos dos romenos”.
O primeiro ministro italiano, Silvio Berlusconi, mostrou seu apoio ao presidente francês, Nicolas Sarkozy, em sua política de deportações de romenos e búlgaros de origem cigana. “A senhora Reding”, disse Berlusconi fazendo alusão à Comissária de Justiça da União Européia, faria melhor tratando desse assunto privadamente com os dirigentes franceses, ao invés de publicamente, como tem feito”. Em uma entrevista exclusiva concedida ao jornal francês Le Figaro, Berlusconi manifestou que “a convergência ítalo-francesa ajudará a agitar a Europa e a resolver os problemas com políticas comuns”.

As palavras de Berlusconi atiçam uma controvérsia que segue quente apesar de o governo francês ter pedido a Bruxelas calma e diálogo frente a uma possível sanção pela expulsão ilegal de romenos de origem cigana. Durante uma reunião com senadores, Sarkozy manifestou que “não haveria nenhum” problema se os luxemburgueses quisessem acolher os ciganos. O presidente respondia assim às críticas da comissária de Justiça, Viviane Reding, que é de Luxemburgo, que comparou as deportações com os fatos ocorridos durante a Segunda Guerra Mundial e depois foi obrigada a se retratar dizendo ter sido mal interpretada. Um alto funcionários dos Estados Unidos disse que “é preciso convidar a França e outros países a respeitar os direitos dos romenos”. A chanceler alemã Ângela Merkel criticou o tom e as declarações de Reding, qualificando-as como “não apropriadas”.

O porta-voz em Bruxelas da Liga Norte, partido xenófobo aliado do governo italiano, foi mais longe que Berlusconi. “Quantos romenos Luxemburgo vai acolher?” – perguntou Mario Borghezio. “Convido a senhora Reding a confirmar ou desmentir se em seu país há campos nômades graças ao endurecimento das normas de expulsão de 2008”, declarou o porta-voz.

A União Européia ainda não entendeu

“O problema com os romenos não é um problema especificamente francês”, disse Berlusconi na entrevista ao Le Figaro. “Concerne a todos os países da Europa. É preciso incluir esse assunto na ordem do dia do Conselho de Chefes de Estado e de Governo para que discutam juntos e encontrem uma posição comum”, afirmou o primeiro ministro italiano. Além disso, Berlusconi assinalou que a União Européia ainda não entendeu que o problema com os romenos e com a “imigração clandestina” não é só “francês, italiano, grego ou espanhol”.

O governo de Silvio Berlusconi empreendeu sua cruzada contra os ciganos em abril de 2008. Assim que tomou posse do cargo, o ministro do Interior, Roberto Maroni (da Liga Norte), proclamou que sua prioridade seria devolver aos cidadãos a segurança perdida sob o governo de centro-esquerda. Entre apelos para expulsar do país as “hordas de bárbaros”, o gabinete aprovou o Pacote de Segurança, um projeto que associava imigração com delinqüência e previa diversas medidas contra os 150 mil romenos que teoricamente estavam morando no país: fechamento de fronteiras e bloqueio do Tratado de Schengen contra os ciganos romenos, destruição dos acampamentos ilegais de romenos com prisões e deportações, e criação de cargos especiais para lidar com a “emergência” cigana em Nápoli, Roma e Milão.

Enquanto a lei era aprovada, houve um programa organizada pela Camorra em Ponticelli (Nápoli) e o Ministério do Interior realizou um censo dos nômades que viviam no país, utilizando fichas com a raça e a origem, incluindo aí crianças. Ambas as coisas levaram muitos romenos a sair do país por seus próprios meios. As recorrentes condenações da ONU, do Parlamento Europeu e da Comissão Européia chegaram tarde. Milão e Roma seguem ainda hoje destruindo acampamentos, mas só restam os ciganos para desalojar.

França tenta baixar a tensão

O conflito entre a Comissão Européia, personificada na figura da comissária da Justiça, Viviane Reding, e o governo francês, obrigou o presidente da França, Nicolas Sarkozy, a pedir calma e um cessar fogo. As duras críticas de Reding contra o que considera equívocos franceses e contra a política de expulsões de ciganos romenos e búlgaros (evocando inclusive a Segunda Guerra Mundial) irritaram o governo francês. Tanto o ministro da Imigração, Eric Besson, como o secretário de Estado para Assuntos Europeus, Pierre Lellouche, muito irritados, qualificaram de “escorregão” as declarações da comissária. O governo francês foi obrigado a fazer uma mediação e emitiu nesta quarta pela manhã um comunicado no qual critica a intervenção “não usual” de Reding, mas chama para “um diálogo tranquilo sobre o pano de fundo do problema”.

Mas pouco depois, durante um encontro com senadores da União por um Movimento Popular (UMP), Nicolas Sarkozy, segundo relato de várias pessoas presentes, insinuou que se Reding não estava de acordo com sua maneira de tratar os ciganos romenos que os acolhesse em Luxemburgo, país de origem da comissária. “O presidente disse que só estamos aplicando o regulamento europeu e as leis francesas e que não há nada a reprovar em nossa política, mas que se os luxemburgueses quiserem acolhê-los podem fazê-lo sem nenhum problema”, disse na saída da reunião o senador da região de Haute-Marne, Brudo Sido, para a agência France Press.

O comentário de Sarkozy chega logo após vários ministros e líderes políticos franceses, além do próprio governo por meio de seu comunicado, terem qualificado de “inaceitável”, de “escorregão” e de “escandaloso” a comparação feita por Reding das expulsões de ciganos romenos na França com fatos ocorridos na Segunda Guerra Mundial. Lellouche assegurou que essa frase de Reding “é muito grave, porque a França sofreu uma ocupação”. Depois acrescentou que o que busca agora, sobretudo, “é acabar com essa polêmica estéril e começar a trabalhar por essa minoria”. Agora, essa minoria deve regressar e ficar na Romênia. “Cada Estado deve ser responsável por sua população”. Lellouche recordou que o desmantelamento de acampamentos de ciganos romenos “não começou neste verão”, mas foi nas últimas semanas que se intensificou o ritmo de deportações e que, além disso, “acabou-se com a hipocrisia”. Ele acrescentou, referindo-se aos outros países europeus: “Quando deixarem de atacar a França, que olhem para o seu próprio jardim”.

Um pouco mais calmo, Besson também qualificou de “escorregão” a intervenção da comissária, que anunciou que pensa em propor ao presidente da Comissão a abertura de um processo de punição contra a França por uma aplicação discriminatória da diretriz de livre circulação de pessoas – os ciganos romenos e búlgaros são cidadãos da União Européia. Não obstante, anunciou que a França vai dar explicações a Bruxelas sobre a famosa circular de 5 de agosto, que esgotou a paciência de Reding. Nesta circular, o governo instrui a polícia para que desmantele os acampamentos ilegais “tomando como prioridade os dos ciganos romenos”, o que prova, para Reding, discriminação racial por um lado e equívocos do Executivo francês por outro, já que Besson e Lellouche deram garantias à própria comissária de que as expulsões estavam ocorrendo caso a caso, sem atender a critérios de raça ou nacionalidade. “Viviane Redin escreveu-me ontem para pedir explicações sobre a circular. Vamos responder e dar-lhe explicações”, disse Besson.

As explicações, basicamente, consistem em que dita circular já foi emendada, eliminando a referência aos ciganos romenos. Assim falou o secretário de Estado da habitação, Benoist Apparu. “Não dissimulamos nem mentimos. A circular existia e foi corrigida. Ponto. Acabou”.

Diálogo acabou
O fato é que o cruzamento de declarações fez a França reagir, buscando, sem êxito até aqui, que o assunto não siga adiante. Após a reunião do Conselho de Ministros, um porta-voz do governo tentou acalmar os ânimos: “Não se trata de polemizar, nem com a Comissão nem com o Parlamento.Não obstante, certas declarações simplesmente não são aceitáveis”. Recordando anteriores intervenções “moderadas” do presidente da Comissão, José Manuel Durão Barroso, sobre o assunto, o governo francês atribuiu as palavras de Reding à famosa circular de 5 de agosto, “que foi substituída pela do dia 13 de setembro”.

É hora de um diálogo tranqüilo sobre o pano de fundo desse assunto. Há vontade de tratar as coisas a fundo e não deixar-se embarcar em uma polêmica estéril, declarou uma fonte da presidência que deixou escapar que o presidente francês, Nicolas Sarcozy, poderia entrevistar-se sobre o assunto com o presidente romeno, Traian Basescu, na próxima reunião do Conselho Europeu, que ocorrerá esta semana em Bruxelas.

Tradução: Katarina Peixoto