sábado, 9 de abril de 2011

Os brasileirinhos

Os brasileirinhos. Aqueles que partiram cedo demais desta vida. Aqueles para os quais deveríamos estar construindo uma sociedade de paz. Aqueles que deveriam ter escolas seguras, com professores bem formados e com bons salários, com computadores e bons espaços para arte e esporte.

Aqueles brasileirinhos que choram seus irmãos, seus colegas, sem entenderem bem por que acontecem coisas como essas, por que se usa impunemente armas para entrar nas escolas. Os brasileirinhos que ouviram falar que a educação é fundamental, que eles são o futuro do Brasil. Aqueles brasileirinhos que sonhavam em ser jogadores de futebol, engenheiros, artistas, presidentes da republica.

Os brasileirinhos que se foram cedo demais, sem saber que se tenta construir um mundo melhor para eles, mas que o velho mundo pesa duramente sobre tudo e sobre todos. Principalmente sobre eles, sobre seus pais e suas mães, sobre seus colegas, seus professores e seus irmãos.

Aquelas mães e pais dos brasileirinhos, que faziam todo o esforço para tê-los acordados cedinho, com café com leite, pão e manteiga, uniforme e mochila, para chegarem a tempo na escola. Aquelas mães e pais dos brasileirinhos que faziam todo o esforço e o sacrifício para que eles pudessem ter o diploma profissional que eles não puderam ter.

Aqueles brasileirinhos que brincavam, estudavam, jogavam futebol, cantavam, sonhavam. Aqueles brasileirinhos que queriam ver a Copa do Mundo e as Olimpíadas no Rio. Que queriam ver as favelas pacíficas, as escolas tranquilas, seus pais empregados, seus irmãos entrando na universidade.

Os brasileirinhos que se foram tão cedo. Que não puderam esperar pelo futuro que se supõe estamos construindo para eles. Que não tiveram oportunidade de se tornar jovens, adultos, de viver a plenitude da vida.

Os brasileirinhos que são a maioria da infância e da juventude do Brasil, mas não são centralmente contemplados pela mídia, discriminados e invisibilizados, salvo quando acontecem tragédias.

Enquanto todos nós não nos sentirmos brasileirinhos, com suas esperanças e suas fragilidades, com suas vontades e suas frustrações, seus sonhos e seus pesadelos, e lutarmos, junto com todos eles, brasileirinhos serão apenas os meninos pobres, despossuídos, carentes. Um Brasil para todos tem que ser, antes de tudo, um Brasil de todos os brasileirinhos.

Por Emir Sader

quinta-feira, 7 de abril de 2011

A Escola deve ser espaço mais sagrado do que qualquer templo

Acordo muito cedo, levo minha filha pra escola, volto e por volta das 7 H retomo minha rotina. Sou educadora, aprendi a ser desde quando, no 1º ano da Universidade, entrei numa sala de aula de Educação de Adultos, depois em salas de 3º ano de Ensino Médio, e depois com crianças de 6º e 7º anos do Ensino Fundamental e, paralelamente, formando professores em diferentes cursos de formação mas, especialmente, na formação para a educação em direitos humanos, na educação para a igualdade étnico racial.
Educar é a minha vida, acredito que podemos educar em todos os espaços sociais (no mundo off line e no mundo on line).
Hoje, pela manhã, em Realengo, Rio de Janeiro, Wellington Menezes Oliveira conseguiu entrar armado na escola municipal Tasso da Silveira (de Ensino Fundamental),  e até o momento as notícias desencontradas das tevês e jornais informam que 11 crianças foram assassinadas com tiros na cabeça e abdômen.
O mundo inteiro se volta para o Brasil, para Realengo, para o Rio de Janeiro: Guardian, Le Figaro e La Nación, Al Jazeera, BBC, El País, La Reppublica e Wall Street Journal - ”A tragédia choca a sociedade brasileira, de orientaçao familiar e onde a violência contra crianças é rara”. Infelizmente, a violência contra as crianças e adolescentes não é rara no país. Existem diferentes formas de violência, adolescentes, meninos, negros são os mais vitimados. Uma pequena busca aqui no Blog mostrará alguns vídeos de policiais atirando em adolescente em Manaus, policiais espancando adolescente em Feira de Santana e tantas outras formas de se propagar a violência.
Professores exauridos, desestimulados cansam-se de denunciar a violência em várias escolas urbanas das periferias brasileiras: crianças e adolescentes expostos ao tráfico de drogas, alunos armados, roubos… Mas nada se compara ao que aconteceu nesta escola hoje. Uma escola de referência, pois tem uma política inclusiva, atende deficientes auditivos.
Na manhã de hoje a escola recebia ex-alunos para dar palestras em comemoração aos seus 40 anos. Segundo relatos de profissionais da escola de Realengo o ex- aluno, Wellington, aproveitou-se disso e se identificou como um dos palestrantes.
Não se tem ainda informações seguras sobre o que levou este jovem a matar 11 crianças de 12 a 14 anos (10 meninas e 1 menino) e ferir mais 29! Quanto a morte do atirador, a versão do sargento Alves, o primeiro a chegar na escola é de que o atirador foi baleado pelo sargento e após levar um tiro se matou.
Há uma imensa especulação na mídia televisiva e impressa sobre o perfil do atirador: desde que se tratava de um ‘extremista islâmico‘, de que era ‘filho adotivo’, ‘viciado em internet’, jovem de ‘poucos amigos’,  ’portador do HIV’…
Esse é um momento perigoso, onde empresas jornalísticas em busca de audiência exploram como podem esta imensa tragédia: islamismo, adoção, internet e portadores de HIV tornam-se explicações fáceis para nossas mentes bestificadas diante do absurdo que é crianças serem mortas dentro da escola.
Ouço na Record News o absurdo do apresentador João dizer que ataques como este é ‘normal’ no Oriente Médio! Tevês dizem que o atirador deu mais de 100 tiros! Como seria possível dar mais de 100 tiros se o atirador portava dois revolveres de calibre 38?  Como este jovem tinha tanta munição? Como conseguiu as armas? Como fomos capazes de dizer não ao desarmamento e sim ao comércio de armas?
Tento escrever este texto em busca de alguma organização mental, emocional. Sou mãe, educadora, não posso sequer imaginar a dor incomensurável desses pais que deixaram seus filhos na escola, porque é um espaço de saber, um espaço de formação, um espaço de cidadania, um direito das crianças e adolescentes frequentarem de modo seguro, um dever de governos proverem e uma obrigação constitucional dos pais enviarem seus filhos.
No meio de tantas especulações feitas pela imprensa, é preciso ressaltar o bom senso do prefeito Paes ao se pronunciar: não espalhou pânico, defendeu a escola como um espaço da comunidade.
A presidenta Dilma Rousseff fez um pronunciamento visivelmente emocionada em solidariedade às famílias e as crianças vitimadas.
A ministra de Direitos Humanos, Maria do Rosário sabiamente ressaltou que neste primeiro momento é preciso oferecer toda a solidariedade e apoio às crianças da escola e as famílias das vítimas e, ao mesmo tempo, lembrou à imprensa de sua responsabilidade, para que evitassem espetacularizar esta tragédia espalhando pânico entre as crianças. Rosário rememorou, por exemplo, como a imprensa explorou o caso da menina Isabela. Mesmo assim na Record News prosseguia insistindo no ‘argumento’ de que nos ‘demais países’ isso é ‘terrorismo’ e se não iremos tratar assim também! Como pode uma tevê propor esta abordagem sem qualquer investigação?
Como pode políticos oportunistas como o deputado Marcos Feliciano mais uma vez se aproveitar de uma tragédia sem precedentes no país pra espalhar seus dogmas equivocados, intolerantes, irresponsáveis e afirmar que tal tragédia é uma profecia divina pra castigar infiéis?
Gostaria imensamente que aprendêssemos como tragédias como estas. As escolas não devem virar prisões (algumas já têm este aspecto) elas devem ser espaços valorizados pelas comunidades, devem ser fortalecidas, queridas, abraçadas, nossas crianças efetivamente protegidas, tratadas com dignidade para que cresçam amando o conhecimento e diminuindo o grau de intolerância. Nossos profissionais da educação devem ser valorizados, porque é uma imensa responsabilidade e exige uma tremenda formação profissional formar futuros cidadãos.
Que esta tragédia não sirva para os oportunistas de sempre pregarem mais e mais intolerância. Que possamos aprender com Hannah Arendt a lição maior da autoridade: o mundo adulto é responsável pelas gerações futuras. Não fujamos de nossas obrigações. Isso significa que todo adulto deve ser responsável por qualquer criança. Isso significa, por exemplo, olharmos para além dos nossos umbigos, de nossas crias, de nossos alunos, isso exige de nós um compromisso maior e real com políticas públicas que sejam capazes de incluir, educar, prover de espaços culturais e de lazer, formar e amar todas as nossas crianças. Elas merecem um futuro melhor que balas na cabeça em seu espaço escolar.


Por que os EUA devem aumentar a taxação dos ricos




A imensa maioria dos estadunidenses não pode arcar com mais pagamentos de impostos. A despeito da economia ser hoje duas vezes maior que há trinta anos, 90% dos mais pobres estão chafurdando na lama. A distribuição da renda nacional sofreu declínio, mas a carga tributária sobre a classe média aumentou. Hoje, os contribuintes das classes trabalhadoras e média estão arcando com uma vasta parcela de seus salários em pagamentos de imposto de renda, sobre circulação e propriedade. É exatamente o oposto do que se passa com os super ricos. O artigo é de Robert Reich.

É hora de impostos. E também o é quando a direita republicana está lançando a agenda pelo corte massivo de gastos, que atingirá muitos estadunidenses.

Aqui está a verdade: o único modo de os EUA reduzirem o déficit fiscal de longo prazo, manter os serviços públicos fundamentais, o Social Security e o Medicare, investir mais em educação e infraestrutura e não aumentar os impostos da classe média trabalhadora é aumentando a taxação dos super ricos.

Mesmo se nos livrarmos dos subsídios do bem-estar das corporações ligadas ao petróleo, ao agronegócio e à indústria farmacêutica – até mesmo se cortarmos o nosso inchado orçamento de defesa – não seria nem próximo do necessário.

A imensa maioria dos estadunidenses não pode arcar com mais pagamentos de impostos. A despeito da economia ser hoje duas vezes maior que há trinta anos, 90% dos mais pobres estão chafurdando na lama. Se estivessem empregados, estariam ganhando apenas algo como 280 dólares a mais do que há trinta anos, considerando a inflação do período. Isso é menos do que 1% de ganho em mais de um terço de século. (As famílias estão de certa forma melhores, mas só porque muitas delas hoje têm de contar com duas rendas).

A distribuição da renda nacional sofreu declínio, mas a carga tributária sobre a classe média aumentou. Hoje, os contribuintes das classes trabalhadoras e média estão arcando com uma vasta parcela de seus salários em pagamentos de imposto de renda, sobre circulação e propriedade, maior do que há trinta anos.

É exatamente o oposto do que se passa com os super ricos. A participação dos 1% mais ricos na renda nacional dobrou ao longo das últimas três décadas (de 10% em 1981 para bem mais de 20%, hoje). Um décimo dos 1% mais ricos triplicou de renda. E vão melhores do que nunca. De acordo com uma análise recente do Wall Street Journal, o total do volume de negócios entre os bancos de Wall Street e as firmas de seguros bateu recorde em 2010 – 135 bilhões de dólares. Isso representa um crescimento de 5,7% sobre o valor negociado em 2009. Ainda assim, notavelmente, a taxação sobre os mais ricos despencou. De 1940 a 1980, o percentual de contribuição do imposto de renda dos mais rico era de no mínimo 70%. Nos anos 50, era de 91%. Hoje, é de 35%. Mesmo se você contar com as deduções e os créditos, os ricos hoje estão pagando muitíssimo menos de sua renda do que jamais pagaram, desde a Segunda Guerra.

O imposto sobre herança (que só conseguiu chegar a 2%) também foi cortado. Em 2000, era de 55% e cobrado em caso de patrimônio avaliado acima de 1 milhão de dólares. Hoje, este percentual é de 35% e só é cobrado em caso de patrimônio superior a 5 milhões de dólares. Os ganhos de capital – que compreendem a maior parte da renda dos super ricos – eram taxados em 35% no fim dos anos 80. Hoje são taxados em 15%.

Se os ricos fossem taxados da mesma maneira que eram há meio século, estariam pagando mais de 350 bilhões a mais só neste ano, o que se traduz em trilhões na próxima década. É o suficiente para financiar todas as necessidades da nação, enquanto se reduz déficits futuros.

Se também cortarmos os custos do que também não precisamos (o bem-estar corporativo e o orçamento militar inchado), os impostos poderiam ser reduzidos para todos os que ganhassem menos de 80 mil dólares por mês, também. E com um sistema de assistência em saúde de pagador único – Medicare para todos -, em vez de um amontoado de planos de saúde voltados ao lucro, a nação poderia economizar mais bilhões.

Sim, os ricos encontrarão maneiras de evitar o pagamento de mais impostos, graças a contadores espertos e a advogados tributaristas. Mas isso sempre foi assim, independentemente de quem paga o imposto. É por isso que o governo deveria pensar grande. (Durante os anos 50, quando a carga tributária dos mais ricos era de 91%, os ricos usavam de brechas e deduções como uma maneira prática de reduzir a carga tributária para 50 a 60% - uma quantia substancial para os padrões de hoje, ainda). E, sim, alguns dos super ricos levarão seu dinheiro para as Ilhas Cayman e outros paraísos fiscais. Mas pagar tributos é uma obrigação central para a cidadania, e aqueles que evadem divisas num esforço de sonegação de impostos estadunidenses deveriam perder a cidadania dos EUA.

Mas os super ricos não têm poder suficiente para cessar qualquer tentativa de fazê-los pagar a parte que lhes cabe? Só se permitirmos. E aqui está a questão a respeito da qual os progressistas e populistas, à esquerda e à direita, trabalhadores sindicalizados e todos os outros trabalhadores devem claramente se unificar. Além disso, a razão pela qual temos um democrata na Casa Branca – na verdade, a razão porque de resto temos um partido democrata – é tentar reequilibrar a economia exatamente nesse sentido.

Tudo o que o presidente tem a fazer é conectar os pontos – a explosão da renda e da riqueza dos super ricos estadunidenses, a queda dramática das suas obrigações tributárias, o consequente arrocho orçamentário devastador de Washington e nos estados federados, e o corte nos serviços públicos vitais à classe média e aos pobres.

Isso não deveria ser difícil. Muitos estadunidenses estão se dando conta. A estas alturas eles sabem que a teoria econômica do gotejamento é uma mentira. E todos sentem que o jogo está a favor dos multimilionários e bilionários, e de suas corporações, que atualmente pagam uma ninharia em tributos.

Além do mais, o Presidente tem o púlpito. Mas ele vai usá-lo?

(*) Robert Reich é professor de Políticas Públicas na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Trabalhou em três governos federais estadunidenses, e mais recentemente foi secretário do trabalho do presidente Bill Clinton. Escreveu doze livros, incluindo The Work of Nations, Locked in the Cabinet, e seu mais recente livro, Supercapitalism.

Tradução: Katarina Peixoto


Fonte: Artigos de Robert Reich no site Common Dreamns

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Atoleiro racista

Quem acha que a liberdade de expressão permite manifestações como as do deputado Jair Bolsonaro também é cúmplice do crime, afirma pesquisadora

Roseli Fischmann
A indignação que varre o País, e não encontra adjetivos suficientemente adequados para se expressar, como reação às falas do deputado Jair Bolsonaro, tem como base o mesmo posicionamento histórico que levou a Constituição de 1988 a incorporar, em seu artigo 5º, o racismo como crime inafiançável e imprescritível.
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As tentativas de burlar a lei, tentando encontrar justificativa para o injustificável, seja por parte de Bolsonaro, afundando cada vez mais em seu mar de posturas discriminatórias, seja por parte dos que o apoiam, indicam a persistência do racismo.
À pergunta sobre qual seria sua reação, se seu filho se apaixonasse por uma negra, Bolsonaro disse: "Preta, não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco e meus filhos foram muito bem educados. E não viveram em ambiente como lamentavelmente é o teu."
Sua resposta foi expressão de racismo? Sim. Impossível tergiversar que a atribuição de um (des)qualificativo como "promíscua" foi feita de forma extensiva a todas as mulheres negras e não apenas a quem se dirigiu a ele. Preta não perguntou a reação do deputado a uma possível paixão do filho dele por ela; era uma pergunta ampla, geral, tratando de uma mulher negra indefinida. Toda e qualquer mulher negra.
A resposta do deputado acentua o racismo, ao associar o termo promiscuidade ao que para ele é a raiz da mesma: "ambiente como lamentavelmente é o teu". Essa fala indica sua intenção de abranger, para além daquela particular mulher negra que o indagava, todos os negros - homens, mulheres, crianças, idosos, jovens.
A entrevista ao CQC apresenta "exemplos de manual" do que Theodor Adorno qualificou como "personalidade autoritária", na qual a ofensa a Preta Gil significou a prova irrefutável dessa classificação. A continuidade da matéria, em suas manifestações sobre "lixar-se" para a comunidade LGBTT, é a derradeira prova dos nove da postura discriminatória que, além de autoritária, também se enquadra como violação da Constituição.
A tendência a generalizar de forma imprópria, a considerar inferiores categorias de seres humanos que venha a eleger como tais, a despersonalizar, a negar a pluralidade humana, são traços da personalidade autoritária que apoia golpes e sustenta totalitarismos. As vozes que se levantaram em sua defesa indicam o perigo que se abriga nesse tipo de atitude. Nas respostas ao CQC, o deputado não deixou dúvidas sobre sua atitude de apoio à ditadura.
O que está em jogo é não apenas a defesa de vítimas do racismo, mas também a cidadania e a democracia, cuja base é o respeito a todos e todas, por sua igual dignidade, igual direito à liberdade de ser plenamente humano. A hierarquização e o desprezo moral que a fala do deputado expressa são inaceitáveis em uma democracia. Foi esse tipo de atitude que esteve presente na política do Estado nazista que determinou a morte de milhões de judeus, romas (ciganos), homossexuais, pessoas com deficiências e, depois, adversários do regime.
São diversos os níveis de gravidade que o deputado sinalizou: "meus filhos foram muito bem educados". Qual a mensagem que essa fala, e o que se fará dela, transmite à juventude, às crianças e a toda a população? Porque o poder educativo da mídia é indiscutível, como o poder educativo do Poder Judiciário, ao aplicar a lei - que atitude se tomará? O próprio Poder Legislativo é também chamado à arena, para dizer como reagirá já que se trata, por assim dizer, de um dos seus.
A ideia de que a liberdade de expressão garantiria esse tipo de manifestação é cúmplice desse racismo, e igualmente criminosa. Quem tiver dúvida deve consultar o histórico processo julgado pelo STF no qual foi condenado Ellwanger por racismo, o parecer como amicus curiae, de Celso Lafer, e o Daniel Sarmento de Livres e Iguais. Os estudos jurídicos sobre os discursos de ódio ensinam que, no conflito entre duas liberdades distintas, vence aquela que não prejudique a presença de qualquer cidadão no campo democrático.
O discurso de ódio impede a presença da vítima, que pode se recolher, humilhada e ofendida, se o Estado não acudir em sua defesa. Ou, como ensina Richard Dworkin, pode a vítima, individual ou coletivamente, movimentar-se no uso do direito à insurgência se perceber que o Estado a despreza tanto quanto o racista que a insultou - o que comprometerá a paz social que a democracia busca.
ROSELI FISCHMANN É COORDENADORA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO DA UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO, MEMBRO DO COMITÊ CIENTÍFICO DA COALIZÃO UNESCO DE CIDADES CONTRA O RACISMO E PESQUISADORA DO CNPQ
Fonte: Estadão


Leia materia completa: Atoleiro racista - Portal Geledés

domingo, 3 de abril de 2011

A guerra na Líbia e as armas que restam a Kadafi


A partida que está sendo jogada na Líbia é decisiva. E quanto mais Kadafi “resiste”, mais crescem os riscos. Tudo leva a crer que o coronel, mesmo que esteja se revelando um osso muito mais duro de roer do que Mubarak e Ben Ali, seja queimado. Mas ele sabe bem que a Líbia é um país diferente da Tunísia e do Egito – exército fraco, partidos políticos e sociedade civil inexistente, estrutura tribal forte – e tem, da sua parte, três armas poderosas para usar. O petróleo, a ameaça do recurso (ou do retorno) ao terrorismo e a imigração em massa em direção à “Fortaleza Europa” – da qual pode reabrir as torneiras. O artigo é de Maurizio Matteuzzi.

Il Manifesto

Quem vê a Praça Verde de Trípoli, com suas marcas ainda visíveis do império turco-otomano e da posterior dominação colonial do fascismo italiano, ocupada dia e noite pelos rumorosos apoiadores de Kadafi com seus posters do Coronel e bandeiras verdes (e não raro kalashnikovs), pode acreditar que na Líbia não há oposição. Ou que a oposição é apenas, como os porta-vozes do governo libanês não cansam de repetir aos incrédulos jornalistas estrangeiros que cobrem a guerra desde a capital da Jamahiriya, uma insignificante minoria de “traidores” concentrada no leste do país – a indócil Cirenaica, baluarte do Islã militante dos “Irmãos Muçulmanos” e da fraternidade senussita do rei Idriss, o fantoche elevado ao trono pelos ingleses e derrubado pelo golpe branco dos 12 “oficiais livres” em 1969 – e manobrada por uma “conspiração” do Ocidente (sobretudo Estados Unidos, França e Inglaterra) que gostaria de transformar Bengazi em um “Emirado islâmico” na margem meridional do Mar Mediterrâneo, a dois passos da “Fortaleza Europa”. Uma aliança perversa e aparentemente “impossível”, mas já experimentada mesmo recentemente (o Afeganistão invadido pelos soviéticos, a guerra da Bósnia...).

Naturalmente, a imagem que se faz da Líbia a partir da Praça Verde – ou mesmo de Trípoli, onde Kadafi conserva um apoio popular aparentemente sólido – é muito limitada e parcial para explicar as razões profundas de uma revolta que se transformou rapidamente em uma guerra civil e a seguir em uma (nova) “guerra humanitária” em escala internacional (para Kadafi, uma “cruzada colonialista”), a quarta proclamada pelo Ocidente no vintênio seguinte ao fim oficial da “guerra fria” (duas no Iraque, Somália, Afeganistão).

A Líbia deve o seu nome aos gregos, que assim chamaram todas as terras conhecidas a oeste do Egito. Nome que foi exumado somente em 1934 quando o governo fascista italiano decidiu unificar as três províncias da Tripolitânia, do Fezzan e da Cirenaica. Foi sempre uma terra de conquista, mas muito dura de conquistar, e sempre um lugar estratégico, mesmo antes que, no início dos anos 50, fosse descoberto o petróleo. Um monte (antes da guerra de fevereiro, produzia 1,6 bilhões de barris por dia, tendo as maiores reservas comprovadas da África).

A Líbia, o quarto maior país da África, é o divisor de águas entre o Magreb, o Ocidente árabe que começa no Marrocos, e o Mashreq, o Oriente árabe que chega até a Síria. A linha imaginária de fronteira corta a Líbia em duas e corresponde, grosso modo, à Tripolitânia a oeste (com o Fezzan ao sul) e a Cirenaica a leste. As duas regiões em guerra desde 17 de fevereiro último, que poderiam corresponder a dois novos países. O tabu da intangibilidade das fronteiras da África, traçadas o mais das vezes arbitrariamente pelo colonialismo, já foi derrubado em 93 com a secessão da Eritréia da Etiópia e, agora, com a do Sudão do Sul do Sudão. A Líbia poderia ir atrás. Por enquanto, é ainda “fanta-política”. Amanhã, sabe-se lá.

É uma das hipóteses entre as tantas que se manejam nestas horas em que não se vê ainda uma solução plausível para o conflito e “a coalizão dos de boa vontade” [“la coalizione dei volenterosi”] está dividida sobre tudo.
Dividida sobre o comando das operações (França? Estados Unidos? Otan?), sobre os objetivos finais (apoio incondicionado aos rebeldes “pro-democracy” de Bengazi? Mas e se no fim não fossem todos assim tão “pro-democracy” ou todos “facebook boys” e se confirmassem os temores da inteligência dos EUA que lembra que o leste da Líbia é a região que, de todo o mundo árabe-islâmico, mandou mais “jihadistas” e kamikazes ao Iraque e ao Afeganistão?), sobre a “exit strategy” (uma solução apenas militar a encerrar-se não com um possível exílio, mas com o “regime change” e a eliminação física de Kadafi? Uma solução política, mas a ser inventada, como recomendam os BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China –, Turquia, Alemanha e a constrangidíssima Itália de Berlusconi?).

A Itália, desde sempre parceira privilegiada da Líbia de Kadafi, é aquela que provavelmente levará a pior. Em 2008, Berlusconi tinha finalmente encerrado o contencioso entre os dois países recebendo Kadafi em Roma, com pompa e circunstância, depois da assinatura de um acordo que garantia, de um lado, desculpas e indenizações pelas atrocidades cometidas pelos italianos nas três décadas de colonização (1911-1942) e, de outro, o fornecimento de petróleo (a Líbia abastece 26% da demanda energética italiana) e a promessa de Kadafi de interromper (com todos os meios, até os mais brutais e desumanos) a corrida migratória dos “boat-people” do Magreb e da África subsaariana em direção à Itália.

A Líbia está espremida entre a Tunísia a ocidente e o Egito a oriente. É claro que o “vento do Magreb” partido de Tunis em dezembro, que sopra também sobre o Marrocos e a Argélia e que se abateu como um furacão sobre o Cairo em janeiro, tendo varrido o estorvo de velhos entulhos em ligação direta com os Estados Unidos (e Israel) como Ben Ali e Mubarak, chegaria também à Líbia, onde também o “Qaid” (o Guia) Muammar Kadafi esbanja, há 42 anos, um poder absoluto impossível de esconder atrás do véu do suposto “poder das massas” anunciado no “Livro Verde”.

O vento partido do Magreb ultrapassou o Magreb e ergueu uma onda que seguiu e seguirá adiante, mesmo que não esteja ainda claro em que praia acabará por depositar-se. Nem se será um tsunami ou apenas uma marolinha suficiente para misturar um pouco as cartas, mas deixando-as nas mãos dos mesmos de sempre depois de alguma forma de “maquiagem democrática”. O Iêmen (que será o próximo elo na cadeia a ceder), o Bahrein (espremido entre a Arábia Saudita e o Irã, salvo por enquanto pelo contingente militar saudita, uma “ajuda fraterna” que não suscitou nenhum protesto “humanitário” do Ocidente, e sobretudo pelo fato de ser a sede da V frota dos EUA), a Síria da dinastia Assad, a frágil Jordânia e o fragilíssimo Líbano, o Iraque da guerra inacabada, a Arábia Saudita (gigante dos pés de argila, grande exportador de petróleo para os Estados Unidos e de “jihad”, a guerra santa islâmica, contra os Estados Unidos), e as petro-monarquias do Golfo (pequenos estados petrolíferos e paraísos financeiros, em geral inventados e presenteados pelo colonialismo, de base familiar e tribal). Até a Palestina, ocupada e violentada por Israel no silêncio culposo do Ocidente (que busca encontrar a força para lançar a terceira Intifada) e a própria Israel, lançada em uma deriva irrefreável de extrema direita (que observa silenciosa e desconfiada a queda como pinos de boliche dos “inimigos” árabes que lhe garantiam o status quo e esquenta os motores para o seu verdadeiro objetivo, o Irã). Ninguém pode se dizer protegido do vento do Magreb.

É por isto que a partida que está sendo jogada na Líbia é decisiva. E quanto mais Kadafi “resiste”, mais crescem os riscos.

Tudo leva a crer que o coronel, mesmo que esteja se revelando um osso muito mais duro de roer do que Mubarak e Ben Ali, seja queimado. Mas ele sabe bem que a Líbia é um país diferente da Tunísia e do Egito – exército fraco, partidos políticos e sociedade civil inexistente, estrutura tribal forte – e tem, da sua parte, três armas poderosas para usar. O petróleo, a ameaça do recurso (ou do retorno) ao terrorismo, a imigração em massa em direção à “Fortaleza Europa” – da qual pode reabrir as torneiras.

A “guerra humanitária” – para “proteger a vida de civis”, para “exportar a democracia” (de novo!) e para meter as mãos no petróleo libanês, 75% do qual está na Cirenaica “liberada” pelos rebeldes – que os Estados Unidos, França e Inglaterra deflagraram contra Kadafi não vai parar. Mesmo que seja uma “guerra humanitária” com uma cobertura da ONU e da OTAN apressada demais e voltada “ad personam” para conferir-lhe alguma legalidade (por que Kadafi sim e não o Iêmen, o Bahrein ou a Costa do Marfim com o seu milhão de civis em fuga do conflito entre os dois presidentes Gbabo e Ouattara?).

Kadafi, com toda probabilidade, está queimado, mas a partida que se joga na Líbia não acabou ainda. O seu resultado final determinará a verdadeira dimensão daquela que foi chamada “a primavera árabe”.

Em jogo não estão apenas as reeleições de Sarkozy e Obama – o Nobel da paz que já tem nas costas duas guerras em andamento, uma na qual promoveu uma espetacular escalada e outra começada por ele, sem contar o golpe de 2009 em Honduras – mas o futuro arranjo da área provavelmente mais estratégica do mundo, pelo menos enquanto não acabar o petróleo e for o teatro do encontro-confronto da civilização com o Islã.

Tradução: Rodrigo Torres Guedes

sábado, 2 de abril de 2011

Entrevista com Teixeira e Sousa

O rapper Fábio Emecê e Clovis Bate-bola estiveram com a presença do ilustre poeta e romancista cabofriense Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa, mas conhecido como Teixeira e Sousa. Pessoa de grande humildade e conhecimento. Coisa difícil foi entrevistar este senhor de olhar triste e voz rouca tamanha a sabedoria existente em suas falas. por vezes preferimos não interromper os rios de sabedoria que jorram pelas palavras desse gênio da nossa literatura.

Para os que não conhecem a obra genial escritor, vale lembrar que é autor do livro O filho do pescador, que é considerado o PRIMEIRO ROMANCE BRASILEIRO. É filho de um português com uma negra. Teve de abandonar o estudos para aprender uma profissão que ajudasse economicamente a família. Aprendeu a mecânica e a carpintaria e trabalhou no Rio de Janeiro durante muitos anos. Hoje, disputa com camelôs o espaço para vender seus livros na rua Érico Coelho. Revoltado com o estado atual da cultura na cidade, diz que se pudesse voltar atrás, teria exposto sua obra em outra cidade.

Teixeira e Souza, sua vida, assim como a de muitos artistas em Cabo Frio, foi muito difícil. Como foi ficar só no mundo tão cedo?
Eu, como todo mestiço, tive de trabalhar muito cedo para ajudar em casa. Era um tempo difícil e não havia a facilidade que hoje se tem de aprender. Ou você passava dias aprendendo uma profissão ao lado de quem tem anos de experiência ou você morria de fome. A gente tinha de trabalhar estudando. Não havia tempo para trabalhar e fazer curso a noite. O meu tempo de laser era dedicado as letras.

Você está com um barraquinha no miolo comercial de Cabo Frio. Houve alguma dificuldade para conseguir a liberação da prefeitura para vender seu livro no local?

Mesmo tendo escrito o primeiro romance brasileiro, tive dificuldades em conseguir espaço na rua para vender. E, mesmo depois de ter conseguido a liberação da secretaria de ação e postura da atual administração, tive que enfrentar muitos problemas com os camelôs no local.


E as casas de cultura locais, como têm olhado para o seu trabalho?




Essas casas pouco se importaram com a minha literatura. Talvez, no dia em que eu morrer, serei lembrado pelo poder público como talento local. Mas, isso não passará de objeto de valorização cultural com cunho eleitoral. Essa é a realidade quando se tem a cultura comandada pela batuta de homens sem compreenção do que fazem com a máquina pública e sem paixão pelo seu povo, por suas origens.


Como tem sido o seu meio de sobrevivência nessa realidade desfavorável?


Graças a Deus, tenho vivido de minha aposentadoria. Trabalhei por durante anos no Rio de Janeiro de carteira assinada e hoje posso sobreviver da minha aposentadoria de um salário mínimo. É muito pouco, mas é melhor do que ter de viver de pensão de políticos.



Há pouco tempo chegou à câmara dos vereadores um projeto de lei que pretendia obrigar a prefeitura a dar uma espécie de "pensão" para o senhor. Como foi a sua reação?


Eu agradeço a ajuda desses senhores que creio terem sido escolhidos democraticamente para representar o povo. Mas, recusei e recusarei sempre. Sou homem que sempre viveu do próprio suor e não será hoje, na minha velhice, que irei sucumbir aos apelos caridosos de políticos. Gostaria de ganhar dinheiro sim, e muito. Mas, quero ganhar pela minha arte e não por esmola ou pena. Quero ser reconhecido pelas próximas gerações como o retrato de algo de bom que aconteceu em Cabo Frio e não mais um sanguessuga do dinheiro público.


Como o senhor tem visto os que movem a cultura na cidade?


Com excessão das entidades autônomas, o resto são meros sanguessugas. Homens que nunca tiveram um lápso de inspiração ou conhecimento de arte, hoje regem as secretarias de cultura como se fossem suas biroscas. Tratam o funcionário público como se fossem criados e o artista como um mendigo. O que esperar desses homens que ganham sem fazer cultura senão o opróbio. Existem também aqueles que fazem alguma obra de arte, mas é mero narcisista preocupado com a necessidade de ser reconhecido acima de sua arte. Isso é lastimável. Esses dias soube da polêmica entre dois rapazes na cidade brigando pela autoria de uma obra de arte. Triste saber que estes talentos natos brigam pela necessidade de serem reconhecidos.


Como você vê esta dependência do poder público por parte dos artistas?




Existem artistas na cidade que nunca publicaram nenhuma obra. Nunca produziram nada que se possa chamar de arte e se gloriam como se fossem deuses nos céus. Há até mesmo aqueles que pagam para outros artistas produzirem suas obras e só assinam. Estes tem um único objetivo de caçar espaço dentro dos governos. Não têm compromisso nem com o município nem com a arte. Sua arte deve ser um reflexo seu e não um cartão de visita para ganhar portarias. Gostam muito de fazer pose na hora de serem fotografados, mas as mãos não estão com marcas de trabalho.


O senhor reconhece algum artista da cidade como expressão de talento?


Esses dias eu caminhava pelo canal e avistei um jovem rapaz, com um chapéu branco e roupas leves, pintando o entardecer da cidade, virado para as águas do Itajurú. Ele olhava sua obra com um olhar triste. Ninguém percebia a magnífica arte que trascorria de suas mãos e se fixava naquele pedaço de pano. Fiquei a certa distância vendo aquele jovem e me perguntando onde erramos na hora de produzir a cultura nessa cidade? Por que aquele pintor estava tão triste e, mesmo estando triste, pintava? Que esperança tem aquele jovem que o faz pintar?


E quanto ao estado da Casa do Wolney, onde residiu o fotografo que mais retratou a cidade durante as décadas de ouro da comunicação brasileira, como o senhor reage ao ver um local histórico reduzidos aos escombros?


É um retrato do nível de cultura e preocupação do poder público para com a cidade. Mas, não posso ser inocente nessa história. Eu creio profundamente que em algum lugar, nós erramos na hora de fazer nossos pequeninos herdar nossa cultura. Ver a casa onde morou o jovem Wolney reduzida aos escombros mostra essa realidade. Em algum lugar nós erramos. Ver os escândalos do carnaval na cidade mostra que nós erramos. Ver toda vergonha política ser exposta nacionalmente, com prefeitos disputando quem tem maioria em processos, expoe nossa culpa na educação de nossos filhos e herdeiros.


Mas, veja o lado bom. A cidade de Cabo Frio será a primeira na Região dos Lagos a ter uma novela própria, produzida por artistas da cidade. Não é um bom recomeço?

Sim, muito me alegra essa nova realidade que se forma a partir desses novos espaços de exposição de arte. Esperamos que essa novela ajude a fazer a arte de Cabo Frio voltar-se para seu povo. Que estes novos artistas façam com que nossa população tenha orgulho de si, que se sinta um como povo e não um bando de forasteiros ou gente corrída de outras cidades. Tenho esperança de que o povo desta localidade que inspirou a novela seja o centro das atenções e não a velha elite.

O senhor acredita que o branqueamento da sociedade cabofriense ainda exista?




Tendo em vista que boa parte dos artistas louvados na cidade não são negros, nem oriundos das classes simples ou com raízes na cidade, creio plenamente que esse branqueamento ainda exista. Espero que essa nova realidade artistica não reproduza os erros do passado e passe a valorizar nossa identidade. Que negros sejam negros e tenham orgulho disso. Espero que vocês não caiam na armadilha do branqueamento dos homens.

O seu retrato nos livros de história reflete esse branqueamento?


Me divirto muito quando vejo alguns desenhos retratos que utilizaram para representar-me na história, mostrando um rosto longe de minhas raízes. Eu pareço tudo nesses desenhos, menos um filho de uma negra com um português. Nessa imagem clássica eu pareço mais com Abraham Lincoln do que com um mestiço brasileiro. Espero que esta geração abra o espaço para minorias que a minha geração não abriu.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Bolsonaro: a cepa de 1964 segue viva em 2011

Bolsonaro tem sido tratado pela mídia conservadora como uma excrescência. Um ponto fora da curva. Um excesso. Um palavrão deselegante na narrativa garbosa do conservadorismo nativo em nosso tempo. De fato, o deputado professa de forma desabrida e truculenta um relicário de anticomunismo, racismo, elitismo, defesa da tortura (hoje em interrogatório de presos comuns...) e mesmo da pena de morte. Ademais, vocaliza alinhamentos nada exóticos em relação a outros temas, quando recebe menos espaço na mídia, mas cumpre igual papel de perfilar entre os que erguem pontes de atualização do programa e dos interesses que produziram 1964. O artigo é de Saul Leblon.

Não deve ser negligenciada a coincidência entre o aniversário dos 47 anos do golpe militar de 1964 e o vomitório homofóbico-racista despejado pelo deputado Jair Bolsonaro (PP), nas últimas semanas.

Em entrevistas e declarações a diferentes veículos, ele adicionou mais algumas pérolas a sua robusta coleção de ataques aos direitos humanos, cujo usufruto, na visão sombria de mundo desse ex-capitão reformado do Exército brasileiro, deveria ser vetado aos negros, aos homossexuais, os índios, os comunistas, socialistas, os pobres e, possivelmente, também, aos deficientes físicos.

Bolsonaro tinha apenas 12 anos de idade quando ocorreu o golpe que instaurou a ditadura militar de 1964. Mas sua formação na Academia de Agulhas Negras ocorreu exatamente durante os anos de chumbo, tendo deixado a carreira em 1988 (fim do regime) para se transformar no único parlamentar brasileiro que defende abertamente o golpe de abril de 1964.

Bolsonaro tem sido tratado pela mídia conservadora como uma excrescência. Um ponto fora da curva. Um excesso. Um palavrão deselegante na narrativa garbosa do conservadorismo nativo em nosso tempo. De fato, o deputado professa de forma desabrida e truculenta um relicário de anticomunismo, racismo, elitismo, defesa da tortura (hoje em interrogatório de presos comuns...) e mesmo da pena de morte.

Assim apresentado, parece mais uma caricatura inofensiva do folclore político nacional. Um Tiririca da Tortura. Será?

Em primeiro lugar, cumpre reconhecer que o ex-capitão exerce o seu 6º mandato. Logo, tem adeptos fiéis. Conta com financiadores perseverantes. Ademais, vocaliza alinhamentos nada exóticos em relação a outros temas, quando recebe menos espaço na mídia, mas cumpre igual papel de perfilar entre os que erguem pontes de atualização do programa e dos interesses que produziram 1964.

Vejamos. Bolsonaro, a exemplo de próceres da coalizão demotucana (caso do senador Agripino Maia, hoje presidente dos Demos e de Artur Virgílio, ex-lider do PSDB) é esfericamentre contra o programa Bolsa Família, que garante uma transferencia de renda a 50 milhões de brasileiros mais pobres.

No seu entender, trata-se, aspas para o capitão: “um projeto assistencialista, de dinheiro de quem trabalha, de quem tem vergonha na cara, para quem está acostumado à ociosidade”. Vamos falar sério. O linguajar pedestre condensa para o nível da caserna aquilo que sofisticados economistas e ‘consultores’ dos mercados financeiros apregoam diariamente como plataforma para a racionalização do capitalismo tupiniquim. Como tal são incensados pelos colunistas, editorialistas e ventríloquos instalados na mídia conservadora que cumprem assim a função de trazer para o ambiente do século XXI aquilo que foi cimentado pelo udenismo, pela repressão e pela censura nos anos de chumbo, aqui e alhures.

Na campanha presidencial de 2010, certos alinhamentos ganharam vertiginosa transparência como acontece sempre que se decide o passo seguinte da história.

Enquanto o jornal Folha de São Paulo e o candidato Serra tentavam sedimentar uma imagem de terrorista e abortista para a então candidata Dilma Rousseff, Jair Bolsonaro, com a rude transparência daqueles a quem é reservado o trabalho dos porões, foi aos finalmentes.

Num comício de Dilma no Rio, o parlamentar pendurou três faixas em postes da Cinelândia. "Dilma, ficha suja de sangue"; "Dilma, cadê os 2,5 milhões de dólares roubados do cofre do Adhemar” e "Lula, vá para o Mobral. Dilma, para o Bangu Um".

Na verdade, o homofóbico deputado apenas fazia uma suíte, a seu modo, da ficha falsa de Dilma construída pela Folha de SP em mais uma demonstração do jornalismo isento...(e que até hoje não se retratou).

Dava incômodos decibéis, igualmente, ao empenho da esposa do tucano José Serra, a bailarina Mônica Serra, que em corpo-acorpo na Baixada Fluminense, em 14 de novembro de 2010, vociferou autoritariamente ao vendedor ambulante Edgar da Silva, de 73 anos: "Ela é a favor de matar as criancinhas", insinuando o apoio de Dilma à legalização do aborto. Seria cansativo rememorar outros alinhamentos do período expressos, por exemplo, por setores de extrema direita da Igreja Católica e por ‘jovens’ revelações dessa mesma cepa ideológica, como o candidato a vice de José Serra, Índio da Costa, um bolsanarinho versão ‘mauricinho carioca’.

Bolsonaros, Fleurys, Erasmos Dias, Curiós, Virgílios, Agripinos, Rodrigos Maia, ACMs netos, Índios da Costa e Carlos Lacerdas nunca prosperam num vazio de conteúdo histórico. Em certos momentos, como agora, incomodam à elite conservadora ao personificarem com alarido e crueza as linhas de passagem que promovem o aggiornamento, para os dias atuais, dos interesses e valores que fizeram o golpe de 32 em SP; o golpismo que levou Getúlio ao suicídio em 54, a tentativa de impedir a posse de JK em 56, a quartelada contra a posse de Jango em 62, a ditadura 64 e a tentativa de impeachment de Lula em 2005.

Mas assim como as tardes quentes do turfe requisitam chapéus esvoaçantes e blazers de linho delicado, também é forçoso cevar e tolerar os relinchos dos potros selvagens nas estrebarias. É dessa cepa que sairão as manadas decisivas para limpar e ocupar o terreno quando fora hora, de novo.