quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Ocupa Wall Street planeja mobilizações para 2012

Três meses depois do início de um movimento que se define como sem líderes e sem demandas específicas, o "Ocupa Wall Street" continua forte em todo o país. Mesmo em Nova York, onde os manifestantes foram dispersados pela polícia, as atividades não pararam. Pelo menos 100 pessoas de diferentes organizações se reúnem diariamente num espaço público, também na região de Wall Street, para discutir pautas diversas. A reportagem é de Carlos Alberto Jr., direto de Washington.

Peter Jacobs tem 19 anos e nasceu em Brasília. Aos seis anos, foi adotado por um casal de americanos e levado para Nova York. Com o passar do tempo, o português e a cultura brasileira ficaram para trás. Na adolescência, os atritos com a família tornaram a relação cada vez mais difícil. "Fui expulso de casa porque meus pais não gostavam do jeito que eu sou. Passei a viver na rua e na casa de amigos", contou Peter à Carta Maior na última segunda-feira, na McPherson Square. Na praça localizada a poucas quadras da Casa Branca, Peter é mais um dos cerca de 350 integrantes do movimento "Ocupa DC" acampados em Washington.

Numa conversa com amigos há dois meses, Peter soube que um grupo de pessoas no estado de Massachusetts havia começado "um grande movimento para mudar o mundo". Ele gostou da ideia. Pegou um ônibus para Boston e desembarcou na Dewey Square, no centro do "Ocupa Boston". "Quando cheguei lá, foi como ser recebido por uma grande família. Havia comida, um lugar para dormir e muita troca de ideias."

Peter, que se considera um sem-teto e acha que o dinheiro só piora a relação entre as pessoas, chegou a Washington há duas semanas. Ele representa uma parcela dos milhares que aderiram ao movimento de ocupação de espaços públicos em centenas de cidades nos Estados Unidos desde 17 de setembro. Nesse dia, um grupo de ativistas fez em Wall Street, o coração financeiro do país, um protesto para chamar a atenção contra o que considera a ganância das grandes corporações, a desigualdade social e a influência cada vez maior de bancos e multinacionais nas decisões de governos em todo o mundo.

A iniciativa marcou o nascimento do "Ocupa Wall Street" (OWS) e a ocupação do Zuccotti Park, em Lower Manhattan. O uso do twitter e do Facebook ajudou a divulgar o movimento e a coordenar as ações. O OWS espalhou-se rapidamente para outras capitais americanas e para mais de 1.500 cidades em 83 países, segundo Melanie Butler, uma das organizadoras do OWS em Nova York.

Poucos dias depois da primeira ocupação, surgia o slogan "Nós somos os 99%" em textos na Internet, camisetas, panfletos e cartazes. A mensagem, criada por um grupo de ativistas do Zuccotti Park, carregava a mesma força do "Ocupa Wall Street" e, igualmente, alastrou-se com velocidade pelas redes sociais. O novo mote resumia a insatisfação com a disparidade econômica e social nos Estados Unidos, onde 1% da população detém 40% da riqueza do país.

O rápido aumento do número de praças e parques tomados nos EUA virou motivo de preocupação. As autoridades passaram a reprimir as ocupações e a expulsar os manifestantes, muitas vezes por meio de ações violentas da polícia. Desde 17 de setembro, cerca de 1.500 pessoas foram presas em todo o país, a maior parte em Nova York, Boston e Chicago. "Os manifestantes expulsos do Zuccotti Park permanecem acomodados em igrejas e casas de simpatizantes na região de Nova York até conseguirmos autorização para ocupar outra área pública", explicou Melanie Butler.

Três meses depois do início de um movimento que se define como sem líderes e sem demandas específicas, o "Ocupa Wall Street" continua forte em todo o país. Mesmo em Nova York, onde os manifestantes foram dispersados pela polícia, as atividades não pararam. Pelo menos 100 pessoas de diferentes organizações se reúnem diariamente num espaço público, também na região de Wall Street, para discutir pautas diversas.

"Tenho encontrado gente totalmente transformada pelo que aconteceu. Elas estão levando o que aprenderam com o "Ocupa Wall Street" para as suas comunidades. Estamos nos espalhando para lugares em que as pessoas poderão realmente participar do processo político. A ideia é descentralizar a tomada de decisões e começar uma mudança global a partir das pequenas cidades", afirmou Melanie. "Quem diz que não alcançamos nada politicamente, porque não temos demandas específicas, apenas revela uma visão estreita da política. Se você olhar para as grandes transformações da história, verá que todas foram de longo prazo e nunca restritas a uma pequena lista de exigências ou plataforma política".

Os estrategistas do OWS começaram a traçar as linhas de ação para 2012 com o objetivo de iniciar a segunda fase do movimento. "O elemento surpresa será nossa tática a partir de agora", disse à Carta Maior Kalle Lasn, ativista e editor da revista canadense Adbusters, crítica feroz da sociedade de consumo.

"No próximo ano, os campi das universidades serão os grandes campos de batalha do movimento. Vamos passar menos tempo em parques e mais tempo em ocupações surpresa, com duração de um dia. Vamos ocupar a sede do Bank of America. No dia seguinte, tomaremos o quartel general do Goldman Sachs. Em universidades ao redor do mundo, vamos ocupar os departamentos de economia e discutir com os professores o tipo de economia estúpida que eles nos estão ensinando", afirmou.

Lasn nasceu na Estônia, mas está radicado no Canadá desde a década de 1970. Ele e sua equipe da Adbusters criaram o slogan "Ocupa Wall Street" e convocaram as pessoas, por meio de um anúncio na revista e pela Internet, a ocupar espaços públicos e apresentar suas demandas. A inspiração veio dos acontecimentos da "Primavera Árabe". "Foi um momento muito excitante para o ativismo em todo o mundo, especialmente porque queríamos esse tipo de revolução há pelo menos 20 anos", disse Lasn, de Vancouver, por telefone.

Ele conta que, quando viram um regime duro como o do Egito cair pela mobilização dos jovens do país, pensaram que algo semelhante também seria possível nos Estados Unidos. "Também temos um tipo de regime aqui na América. Não é um regime como o egípicio, mas ainda assim é um regime de megacorporações com poder para controlar Washington, o coração da democracia americana, e Wall Street, que controla o destino da economia na América. De certa forma, aqui também precisamos de uma mudança de regime suave".

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

“Vamos levar nosso irmão para casa e vamos lutar para derrubar este sistema”

No último 9 de dezembro, mais de mil pessoas se reuniram no Centro Nacional da Constituição na Filadélfia para apoiar Mumia Abu-Jamal, apesar da intimidação de centenas de policiais que gritaram frases de ódio na rua. Em uma chamada telefônica, Mumia disse: “Pela primeira vez em quase 30 anos não estou fisicamente entre os condenados à morte, estou em outro setor chamado Bloco AC. As celas são idênticas as do corredor da morte, mas ninguém deste setor está condenado à morte, dentre eles, eu mesmo. É algo que se tem de acostumar, ainda estou me aclimatando”.

Em relação a sua reação ante ao fato de que sua condenação à morte se converteu em prisão perpétua, ele respondeu: “Devo admitir que me sinto um pouco surpreso porque estava esperando a audiência, me refiro a uma audiência de sentença. Apesar de que muitos de meus amigos e simpatizantes e inclusive meus advogados diziam que era muito provável que não houvesse audiência, eu acreditava que sim. E segui me sentindo assim até que ouvi a notícia. Nestes dias estarei falando com meus advogados e avaliaremos exatamente este tipo de coisa. Sinto um pouco de decepção devido ao fato de que não haverá audiência, já que acreditávamos que poderíamos conseguir algumas coisas durante esta audiência e travar uma boa batalha, mas teremos que batalhar de outras formas. Quero agradecer a todos os que tem nos apoiado durante tantos anos”.

O orador principal do evento na Filadélfia foi Cornell West, que falou da visão e compromisso social de Mumia, “um homem negro livre no corredor da morte”, cujo espírito não foi derrotado em 30 anos... Um homem que se atreve a dizer a verdade sobre o implacável legado da supremacia branca... Um homem que não se rendeu e não se vendeu, como muitos outros fizeram, um homem com uma visão holística e um compromisso fixo com os pobres e deserdados da terra, um homem que se nega a ser “niggerizado”, ou seja, tornar-se o tipo de pessoa que “ri quando não há nada engraçado e se coça onde não há coceira,… Se nega a tornar-se o tipo de pessoa que fique aterrorizada, traumatizada e estigmatizada”. Por outro lado, Mumia é um exemplo de “amor revolucionário, valor revolucionário e gozo revolucionário”, que sob ameaça de morte segue dizendo a verdade a uma geração submetida a “armas de distração massiva”.

Em uma mensagem de vídeo, Desmons Tutu disse que na África do Sul houve uma sensação de alívio ao receber a notícia de uma pequena concessão no caso de Mumia Abu-Jamal quando a Suprema Corte deu parecer de que ele nunca deveria estar sentenciado à morte. Mas afirma que o veredito de culpado também é totalmente inaceitável devido ao preconceito racial e a má conduta da promotoria durante décadas, e que a imposição da sentença de prisão perpétua é simplesmente outra forma de morte. Tutu disse que por fim peritos tão destacados como o Relator Especial da ONU, Juan Méndez, reconheceram como uma forma de tortura as condições de isolamento a que Mumia esteve submetido durante 30 anos. Disse que devido às massivas injustiças cometidas contra ele, o caso deve ser descartado e Mumia deve sair livre imediatamente.

Ao tomar a palavra no ato, Ramona África disse que quando Seth Williams anunciou na quarta-feira que não iria continuar buscando a pena de morte para Mumia, a seu lado esteve Maureen Faulkner. “Entendemos exatamente o que acontece aqui... Hoje mesmo eles odeiam Mumia ainda mais do que odiaram há 30 anos. Estão furiosos pelo apoio internacional que tem, estão furiosos pelo movimento constante que o apóia, estão furiosos porque um homem negro diz a verdade em oposição às mentiras deste sistema... Sabem que não podem ganhar em uma nova audiência... Mas isto não significa que abandonaram seus planos para assassinar Mumia... Há que se perguntar: por que estão tão desesperados, tão inflexíveis em seu afã de matá-lo? Não podem dizer o nome de alguém condenado pelo assassinato de um policial há seis meses, há um ano, há três anos. Não sabem seus nomes. Mas sabem o nome de Mumia Abu-Jamal. Por que estão tão cheios de ódio por Mumia? Por que não se sentem iguais com relação ao homem acusado de matar seu presidente John F. Kennedy...? Ou os assassinos de crianças? Mumia é nosso irmão e estamos muito preocupados por sua vida. Nunca deixaremos de lutar por ele... Nunca deixaremos de lutar contra este sistema podre. Queremos colocar fim a este tipo de injustiça. Vamos levar nosso irmão para casa e vamos lutar para derrubar este sistema... Da mesma maneira que eles estão resolutos em acabar com Mumia e com nós, nós temos que estar duas vezes, três vezes, dez vezes mais resolutos a fazer o justo e o correto”.

O advogado de defesa Michael Coard afirmou que o sistema que tenta assassinar Mumia Abu-Jamal é o mesmo sistema que encarcera crianças e adolescentes durante períodos mais longos do que qualquer outro estado em qualquer país do planeta, e inclusive há crianças de 14 anos de idade sentenciadas a prisão perpétua. Ao criticar a pena de morte, Coard perguntou: “Se apoiamos a prática de contratar pessoal para assassinar os assassinos, por que não contratar pessoas para roubar os ladrões, para seqüestrar os seqüestradores, para estuprar os estupradores? Vocês poderiam dizer: Isto é obsceno! Isto é escandaloso! É o meu ponto”. A respeito do veredicto de culpabilidade, Coard afirma que Mumia é legalmente não culpável e factualmente inocente.
Para ver fotos e vídeos do evento celebrado em apoio a Mumia no Centro Nacional da Constituição em 9 de dezembro, incluindo mensagens de Cornell West, Desmond Tutu, Amiri Baraka, Ramona África, Michael Coard, Immortal Technique, Goldii, acessem este site:

Dois vídeos da deslumbrante performance dos jovens artivistas da Impact Repertory Theater no Centro Nacional da Constituição em 9 de dezembro:

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Ocupa Wal Street

Talib Kweli aderiu ao Ocupa Wal Street:





segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

domingo, 18 de dezembro de 2011

A polícia privada entra em campo

Com o empurrão da Fifa, segurança particular deverá ganhar espaço sem precedentes no Brasil
08/12/2011

Eduardo Sales de Lima
da Reportagem


Funcionários de empresa de segurança privada sul-africanas trabalham
em estádio durante a Copa do Mundo de 2010 - Foto: Marcello Casal Jr/ABr
O mercado das empresas de segurança privada, à semelhança do que ocorreu na Copa da África do Sul, em 2010, provavelmente se consolidará definitivamente por aqui. Uma legislação de exceção, a Lei Geral da Copa tende a contribuir substancialmente para isso. Mas, se por um lado as empresas do setor lucrarão com o evento, a sociedade poderá vivenciar um estado de sítio, levado a cabo tanto por agentes públicos quanto particulares.
De acordo com o texto enviado à Câmara dos Deputados, não se estabelecerão limites para os contratos com o setor na Copa de 2014. “O [Joseph] Blatter [presidente da Federação Internacional de Futebol, a Fifa] trará ao Brasil a consolidação do poder dessas milícias por meio desse modelo neoliberal tardio, trazido pela entidade”, afirma Ivan Seixas, presidente do Conselho Estadual de Direitos Humanos do Estado de São Paulo (Condepe) e ex-preso político.
Segundo Antônio Jorge Ferreira Melo, coronel da reserva da Polícia Militar da Bahia, a Lei Geral da Copa, que poderá ser votada ainda neste ano, atribui ao organizador de eventos a responsabilidade pela segurança interna nos estádios e praças de show, mas não imuniza o Estado e, consequentemente, o contribuinte, de assumir corresponsabilidades, sem a devida contraprestação financeira. Antônio é professor e pesquisador do Progesp (Programa de Estudos, Pesquisas e Formação em Políticas e Gestão de Segurança Pública) da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Divisão de tarefas
É o modelo que a entidade impôs na Alemanha, na África do Sul e, agora, o faz no Brasil. Nos “jogos-Fifa”, a Polícia Militar cuida da parte externa e os vigilantes da segurança interna. Os últimos se responsabilizam pelo estacionamento interno dos estádios, bilheteria, catracas, torcidas e isolamento do campo de futebol. Mas prevê-se que grupos da PM atuem em casos de intensa perturbação da ordem dentro das arenas.
Já houve experiências com esse modelo no Brasil. Num amistoso da seleção brasileira contra a Holanda, em Goiânia (GO), a empresa espanhola Prosegur realizou a segurança interna e já está se especializando em grandes eventos. Já a brasileira Gocil se encarregou do serviço no jogo entre Brasil e Romênia. Como salienta Ivan Seixas, tal modelo tende a “seduzir” o torcedor, considerando que ele se sentirá seguro “sem a opressão de uma farda”.
A realização da Copa do Mundo na África do Sul, entretanto, mostrou que o raio de ação desse setor extrapolou os limites dos estádios de futebol. Turistas e organizadores do torneio buscaram esquemas próprios de proteção. Segundo agências de notícias internacionais, a soma dos agentes de segurança privada compôs um número quase dez vezes maior do que o de policiais sul-africanos oficialmente encarregados da segurança do país. Enquanto a polícia da África do Sul possuía 44 mil policiais a seu serviço, a associação sul-africana Aliança da Indústria da Segurança disse ter empregado formalmente 395 mil pessoas em 2010.

Consolidação
Por aqui, o caminho é feito do mesmo ladrilho, enveredando para o horizonte dos empresários do setor, que não estão dormindo no ponto. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) promoveu, em 12 de setembro, na sede da entidade, um debate sobre segurança na Copa de 2014 e na Olimpíada de 2016. A discussão entre empresários, políticos e militares girou em torno de temas como gestão, tecnologia, legislação e integração das providências nas cidades-sedes da Copa.
Qual será o raio de ação da segurança privada após os grandes eventos esportivos no Brasil? “A questão será se [a partir da Copa do Mundo] for definido que qualquer tipo de espetáculo, seja esportivo ou artístico, patrocinado por particulares, terá que utilizar a segurança privada, seja qual for o tamanho do evento”, pondera o coronel da reserva da Polícia Militar da Bahia, Antônio Jorge Ferreira Melo.
Segundo ele, para mostrar-se seguro, o Brasil precisa se adequar às “forças do mercado”, atualmente globais – portanto, extraterritoriais –, que verdadeiramente exercerão a governança da grande festa do futebol mundial. Ao Estado, caberá apenas dar-se por satisfeito em garantir a infraestrutura, os meios e os serviços indispensáveis à realização dos jogos e assistir, de camarote, como convidado de honra, aos donos do capital mandarem e desmandarem nos gramados.
Antônio teme ainda que o projeto de lei que cria o novo Estatuto da Segurança Privada, em tramitação na Câmara dos Deputados, possa representar uma radicalização na mercantilização de serviços de segurança em nosso país. O parágrafo 5º do artigo 2º do estatuto, por exemplo, determina que “a segurança privada em estádios e outros locais fechados de eventos, sob a responsabilidade da pessoa física ou jurídica promotora do evento, será obrigatória”. O ex-policial acrescenta que “o processo de privatização da segurança é mundial, não é específico no Brasil nem em relação à questão da Copa do Mundo”.
O Brasil, além de ter de se adaptar a uma legislação de exceção, ainda permitirá a participação de capital internacional nas empresas de segurança, “porque geralmente as empresas que fazem segurança na Copa do Mundo são corporações, não são empresas nacionais”, pontua Antônio.

Exceção
Além da privatização da segurança se consolidar no país, a sociedade será obrigada a enfrentar novos desafios. “Esses eventos, tradicionalmente, permitem a criação de um estado de sítio. Deve-se colocar em discussão que com essa segurança particular, controlada por torturadores, policiais corruptos, policiais da ativa, há uma situação de privatização da segurança como um modelo. Devemos defender o modelo de segurança feito pelo Estado e não pelo particular”, defende Ivan Seixas, presidente do Condepe.
Em entrevista ao Congresso em Foco, o promotor público Maurício Antônio Ribeiro Lopes, do Plano Integrado de Atuação do Futebol do Ministério Público de São Paulo, afirmou que a futura Lei Geral da Copa do Mundo vai signifi car a submissão do Brasil aos interesses da Fifa, além de instituir um estado de exceção. “É um momento em que uma série de garantias hoje constitucionais deixarão de ter vigência”, ponderou.
E atestou ainda que possui sérias restrições a substituir o policiamento público oficial por uma milícia privada. “Não há possibilidade alguma de uma revista feita por um particular. Isso é algo inadmissível no nosso sistema. Nós não temos no Brasil uma empresa que tenha experiência em realização de segurança em grandes eventos como tem a Polícia Militar aqui em São Paulo, por exemplo. É uma atuação típica de Estado, e não de particular, o policiamento preventivo”, afirmou o promotor na entrevista.
Na mesma linha, Marcelo Braga Edmundo, coordenador da Central de Movimentos Populares e do Comitê Social da Copa 2014 e dos Jogos Olímpicos, salienta que, por enquanto, as organizações populares questionam a realização da Copa pelo viés das remoções; mas, com a aproximação do evento, as questões da repressão aos trabalhadores e moradores de rua e do controle do espaço urbano também precisam ser levadas em conta.
“Isso tem sido cada vez mais efetivado. Aumentou o número de carros [de empresas de segurança] nas ruas e a presença de equipamentos que visam espionar os trabalhadores”, pondera Braga. De acordo com ele, com crises ou grandes eventos cria-se o clima ideal para que mesmo os seguranças privados exacerbam suas funções. O grande medo, de acordo com ele, é que esses acordos e decretos continuem depois e qual modelo eles nos deixarão.
O Brasil de Fato entrou em contato com as empresas de segurança privada Gocil e Prosegur para que elas comentassem o tema, mas não obteve resposta.

sábado, 17 de dezembro de 2011

A feroz indústria do casamento na China

Em uma sociedade na qual dinheiro e família são quase tudo, o matrimonio se converteu em um gasto multimilionário. A solidez material é condição indispensável. A competição é feroz. Os solteiros com idade legal para contrair matrimônio (22 anos para os homens, 20 para as mulheres) superam 180 milhões. Em muitos casos, os próprios pais se lançam à aventura migratória para melhorar as perspectivas casamenteiras de seus filhos. Nesta corrida os pobres arrancam com óbvia desvantagem. O artigo é de Marcelo Justo.

Não é fácil se casar na China. Em uma sociedade na qual dinheiro e família são quase tudo, o matrimonio se converteu em um gasto multimilionário. A solidez material é condição indispensável. “Ter casa é o mínimo. Um carro facilita mais as coisas”, me diz rindo um taxista de origem camponesa da antiga capital chinesa, Xian. Também não basta a solidez do tijolo ou a roda. Nos banquetes comemorativos da boda, os chineses têm que jogar a casa pela janela: no ano passado gastaram uns 57 bilhões de dólares em seus festejos de casamento.

Nesta corrida os pobres arrancam com óbvia desvantagem. Com um salário médio de 1800 yuans mensais (uns 285 dólares), os trabalhadores migrantes, verdadeira coluna vertebral do “milagre chinês”, têm escassas possibilidades de poupança. Uma recente pesquisa da organização governamental Federação de Mulheres da China, mostrou que a necessidade de melhorar a renda para casar era uma razão fundamental para migrar, mas que em muitos casos a passagem do campo à cidade não melhorava em nada as coisas. “Não sobra quase nada depois de pagar o aluguel. As mulheres na cidade são muito realistas e jamais sairiam com alguém que não pode pagar uma janta ou levá-las ao cinema”, relatou à Federação Xie Kaiqiang, oriundo de um povoado em Shaanxi, norte de China que hoje trabalha na capital Beijing.

A competição é feroz. Os solteiros com idade legal para contrair matrimônio (22 anos para os homens, 20 para as mulheres) superam 180 milhões. Em muitos casos, os próprios pais se lançam à aventura migratória para melhorar as perspectivas casamenteiras de seus filhos. Desde que o confucionismo se impôs finalmente como ideologia há mais de dos mil anos, a veneração dos ancestrais é quase uma religião: a descendência, uma garantia de manutenção futura e lembrança perene.

Hsiao Hung Pai, autora de “Chinese Whispers” e “Scattered sands”, dois livros fundamentais sobre a migração chinesa, comentou à Carta Maior um dos tantos casos que encontrou em sua investigação. “Este camponês de Hebei, no norte de China, trabalhou ilegalmente em Londres oito anos fazendo todo tipo de trabalhos imagináveis. Seu objetivo era comprar uma casa para que seu filho pudesse casar. Conseguiu. Como ele mesmo me disse, “cumpriu com seu dever””, disse a autora.

É um dever que atravessa todas as classes sociais. Assombrado que há alguns anos eu tivesse começado a estudar chinês, o dono do apartamento que aluguei durante meus estudos me disse com certa inveja: “nós, a partir de certa idade, deixamos de aprender: um pai ocidental tem muito menos obrigações”. Além de casa, do carro e do trabalho com promessa de futuro próspero, vem a celebração da boda.

Os banquetes matrimoniais das classes com aspirações sociais podem custar entre cinco e 10 mil yuans por mesa (770 a 1570 dólares) com cerca de 200 convidados em média. Pechinchar ou procurar atalhos e bagatelas é perigoso porque se pode incorrer em um dos piores perigos sociais: “diu lian” (literalmente “perder cara”: cair no ridículo) Alguma coisa os noivos recuperam com os presentes dos convidados. O “hong bao” (envelope vermelho), que o casal recebe, tem que conter dinheiro suficiente se não quiserem “perder sua cara”. Entre os chineses não é incomum procurar desculpas para não comparecer ao casamento e evitar o custoso gasto do “hong bao”.

Os banquetes não são o ponto final. Os recém-casados têm que pagar por fotos e filmagens especiais em lugares de “sonho”. Com suntuosos vestidos branco e fraques, os casais se deixam fotografar sobre as rochas que margeiam um lago ou ao pé de uma montanha famosa. Este cronista presenciou a aparição um tanto alucinante de dezenas de casais em traje de boda no Lago Celestial (Tian Chi) de Xinjiang ou nas montanhas de Guilin. Por casualidade presenciou o mesmo espetáculo em um lugar mais insólito - Santorini, Grécia -, prerrogativa de casais muito mais endinheirados.

A “crise” econômica (crescimento de 9% em vez de 9,5%) não parece afetar esta maquinaria. Os preços dos banquetes aumentaram 10 % no último ano, o das rosas duplicou. Além disso, por uma questão demográfica, a competição vai se intensificar. Segundo o Escritório de Estatísticas chinês, nascem 119 homens para cada 100 mulheres, em parte devido à política de só um filho instaurada há mais de 30 anos e a tradicional preferência pelo filho macho. Este desequilíbrio populacional homem-mulher implica que no final desta década haverá mais de 30 milhões de chineses em idade legal de casamento que não poderão encontrar par.

Esta vantagem demográfica feminina e a crescente explosão de riqueza que se vê em todo o país, ficam evidentes com o surgimento de academias especiais para que as mulheres possam “caçar um bom partido”. Em março abriu em Chaoyang, o distrito rico da capital Pequim, a “Escola das damas virtuosas” que oferece cursos especiais para que as mulheres aprendam a “se comunicar e amar, a fim de encontrar seu companheiro ideal”. Este fim supostamente romântico e altruísta fica um pouco embaçado pelo título de algumas das matérias, como a que ensina a “como relacionar-se com homens exitosos?” A escola gerou debate na imprensa chinesa com artigos que criticavam esta “idolatria do dinheiro”. Mas nada parece acalmar a febre. Em novembro abriu a “Escola da boa e feliz esposa” que começa seus cursos em março próximo. Fei Yang, diretor da escola, deixa claro que a missão educativa não termina com a boda. “Muitos matrimônios de gente rica terminam em divórcio porque as mulheres não podem manter felizes seus maridos”, assinala.

A febre casamenteira esteve acompanhada por um aumento vertiginoso dos casais divorciados que em 2010 alcançaram 20 milhões, 60% a mais que em 2000. Mas nada desestimula os solteiros que no dia 11 de novembro celebraram seu dia com grande fanfarra à espera do sonhado matrimônio.

Tradução: Libório Júnior

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Ação é do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), que pede que Supremo Tribunal Federal (STF) se manifeste sobre controle da concessões por políticos com mandato eletivo. Ação lista quase 50 parlamentares por trás de outorgas. Presidente do PSOL diz que prática distorce democracia. Ministro das Comunicações também é contra, mas acha que Congresso não aprova.

BRASÍLIA - Um dia após Marinor Brito (PA) perder o mandato no Senado para o “ficha suja” Jader Barbalho (PMDB-PA), detentor das outorgas de vários veículos de comunicação, o partido dela, PSOL, acionou o mesmo Supremo Tribunal Federal (STF) exatamente para questionar concessões de rádio e TV a políticos com mandato.

A ação elenca 41 deputados e sete senadores que possuem concessões em seus nomes. Para o PSOL, esse é até um número subestimado, pois não raro os políticos têm parentes, empresas e laranjas por trás de concessões.

Segundo o PSOL, a prática, além de inconstitucional, fragiliza a democracia brasileira e perpetua o chamado coronelismo eletrônico. “Quem deve fiscalizar as concessões de rádio e TV no país não pode controlá-las”, disse o presidente do partido, Ivan Valente.

De acordo com ele, o objetivo da ação é impedir novas concessões para políticos com mandato, coibir a renovação das já concedidas e proibir a diplomação e posse daqueles que, por quaisquer motivos, venham driblar esse preceito constitucional.

A alegação de inconstitucionalidade se baseia no descumprimento de onze preceitos constitucionais, entre eles a liberdade de expressão, o direito à informação, o princípio da isonomia, a soberania política e a democracia.

O ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, já disse que é contra a concessão de outorgas a políticos, pelas mesmas razões apontadas pelo PSOL, e que o governo poderia incluir esse veto na proposta de marco regulatório da radiodifusão, que está em estudo. Mas ele acha também dificilmente a proposta passaria no Congresso, que não legislaria contra si.

O partido diz que a ação não foi motivada pela decisão do Supremo que reconduziu Jader ao Senado – embora o paraense possa ser afetado, caso a corte aceite a ação. Já vinha sendo articulada há vários meses, a partir de levantamento apresentado pelo Coletivo Intervozes, uma organização da sociedade civil que pesquisa a comunicação no Brasil.

“Nos procuramos vários partidos ligados à causada da comunicação, mas só o PSOL se dispôs a ingressar com a ação em parceria conosco”, disse o coordenador da organização, Gesio Passos.

Coronelismo eletrônico
Ivan Valente lembra que a distribuição de canais de rádio e TV vem sendo usada como moeda de troca na política brasileira desde a ditadura militar. “O ex-presidente José Sarney distribuiu quase cem canais para garantir a ampliação do seu mandato. E os ex-presidentes FHC e Lula perpetuaram o modelo”, denuncia ele.

A família Sarney, inclusive, é usada como exemplo clássico de coronelismo eletrônico. O ex-presidente José Sarney não possui nenhum veículo em seu nome, mas a filha dele e governadora do estado, Roseana Sarney, e o filho e deputado, Sarney Filho (PV-MA), possuem vários, de diferentes modalidades.

O lider do PSOL na Câmara, Chico Alencar (RJ), acredita que quem controla meio de comunicação orienta o caminho da nação. “Esse fato absolutamente agressivo à Constituição brasileira, já naturalizado, não pode continuar sem nenhuma reação da sociedade, porque adultera o processo eleitoral e limita a nossa já frágil democracia”.

Para ele, são ilegalidades como esta que permitem que políticos com a ficha suja, como Jader Barbalho, se perpetuem na política desde a ditadura, exercendo influencia na população por meio de seus canais de rádio e TV.