terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Uma coisa sobre o rap, por Mumia Abu-Jamal

17 de dezembro de 1995

"`Você me lembra meu jipe
Quero te encerar, neném
Você me lembra minha conta bancária
Quero te gastar, neném´*

Esses versos são de `You Remind Me of Something´ (você me lembra alguma coisa), de R. Kelly. A canção é suave, com uma base funk e uma voz muito sexy. Mas por que ranjo os dentes toda vez que a escuto?

Não é por que, como diz meu filho, eu seja um velho incapaz de compreender os `cachorro loco´ da nova geração. Tendo dito isso, devo confessar que me sinto mais à vontade com o blues, o som suave de Anita Baker, ou até mesmo Brownstone, com cantoras como Sade e, sim, senhores e senhoras, Whitney. Também curto muito o rap por sua vitalidade, crueza, irreverência e criatividade. O rap é o autêntico legado de um povo com antigas tradições orais africanas, que abarcam várias gerações, desde os contistas chamados griots, que cantavam canções de louvor a seus reis, até os bluezeiros que transformavam sua dor em arte. É preciso entender que, para uma geração nascida nas águas frias do descontentamento nos EUA dos anos 70 e 80, durante períodos de negação, privações e uma emergente supremacia branca, uma canção de amor às vezes pode soar falsa e desafinada, diante da dura realidade da sobrevivência.

Quando as mães e pais dessa geração eram jovens, Curtis Mayfield cantava: `Somos vencedores! E nunca deixe qualquer um dizer que você não pode fazê-lo, porque essa mentalidade te bloqueia. Estamos indo pra frente!´; Earth, Wind and Fire entoavam com rara harmonia: `Mantenha tua cabeça voltada para o céu!´; Bob Marley and the Wailers retumbavam sobre uma forte linha de baixo: `Levante-se! De pé! Defenda os seus direitos!´**

Já a geração hip-hop formou sua consciência num tempo em que se ouviam as letras de Tina Turner, `O que amor tem a ver com isso?´ (What´s Love Got to Do With It?), ou uma mescla egocêntrica que glorificava o materialismo, como `Meus Adidas´ (My Adidas), do Run DMC, sobre um par de tênis, ou `Amigos´ (Friends), de Whodini, cujos versos falam sobre como não se pode confiar em ninguém.

Seus pais cresceram em meio à esperança, tomando consciência da libertação dos negros. Esses jovens cresceram em um ambiente de gcão-come-cão-ismoh, de recuo em relação às promessas feitas nos EUA, do Reaganismo e de um ressurgimento dos direitistas brancos. Neste sentido, a dureza do rap simplesmente reflete uma realidade mais dura, de vidas vividas em meio a promessas rompidas. Como poderia ser de outra maneira?

De fato, no fundo, no fundo, o rap é um negócio multibilionário, que penetra na cultura estadunidense e influi na maneira de pensar de milhões. É aquele corporativismo tão-americano que leva a bravura do rap ao esgoto do materialismo: uma mulher – um ser vivo – lembra a um homem uma coisa – um carro.

Para mim, isso é mais perverso que as tão criticadas menções a gcadelas e putash. É especialmente repreensível quando lembramos que, no século XIX, segundo a lei, os negros eram simplesmente propriedade, bens, coisas, como carroças possuídas pelos brancos. Me assombra que, três gerações depois, um homem negro seja capaz de cantar que uma mulher negra, seu par divino, seu próprio ser feminino, glembra seu jipeh.

Isso não é, nem poderia ser, uma denúncia contra o rap. As canções `Dear Mama´e `Keep your Head Up´, do falecido Tupac Shakur, são brilhantes exemplos de expressões artísticas da unidade do amor entre a própria família e seu povo. A obra desse jovem é criativa, comovente, amorosa, funky, revoltada e real, como uma boa parte do gênero. Como qualquer forma de arte nos EUA, também é um negócio, com todas as influências do mercado sobre a produção. Quanto mais conscientes seus artistas, mais consciente a arte.

Mantenha sua cabeça em pé***."

Do corredor da morte, aqui é Mumia Abu-Jamal

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

sábado, 12 de fevereiro de 2011

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A hipocrisia do Ocidente

Quando os árabes querem dignidade e respeito, quando gritam por seu próprio futuro que Obama assinalou em seu famoso – agora suponho que infame – discurso no Cairo, nos lhes faltamos com o respeito. Ao invés de dar as boas vindas às suas exigências democráticas, os tratamos como se fossem um desastre. Queremos que sejam como nós, desde que fiquem de lado. E assim, quando provam que querem ser como nós, mas não querem invadir a Europa, fazemos o que podemos para instalar outro general treinado nos EUA para que os governe. O artigo é de Robert Fisk.
Não há nada como uma revolução árabe para mostrar a hipocrisia de nossos amigos. Especialmente se essa revolução é marcada pela civilidade e pelo humanismo e é impulsionada por uma enérgica exigência para ter o tipo de democracia que desfrutamos na Europa e nos Estados Unidos. As indecisas tolices sussurradas por Obama e Clinton durante estas últimas duas semanas são apenas uma parte do problema. Da “estabilidade” à “tormenta perfeita” passamos ao presidencial “agora-significa-ontem” e “transição ordenada”, que se traduz assim: nada de violência enquanto o ex-general da força aérea Mubarak é levado a pastar para que o ex-general de inteligência Suleiman possa assumir a chefia do regime em nome dos EUA e de Israel.

A Fox News já disse a seus telespectadores nos EUA que a Irmandade Muçulmana – um dos grupos islâmicos mais “suaves” no Oriente Médio – está por trás dos valentes homens e mulheres que se animaram a resistir à polícia de segurança do Estado, enquanto a massa de “intelectuais” franceses silencia: as aspas são essenciais para nomes como Bernard-Henri Levy que se converteu, segundo o Le Monde, na “inteligência do silêncio”.

E todos sabemos a razão. Alain Finkelstein fala de sua “admiração” pelos democratas, mas também da necessidade de “vigilância” – e este é um ponto baixo em qualquer “filósofo” – “porque hoje todos sabemos sobretudo que não sabemos qual será o resultado”. Esta citação quase rumsfeldiana é dourada pelas próprias palavras ridículas de Lévy: “é essencial levar em conta a complexidade da situação”. Curiosamente, isso é exatamente o que os israelenses dizem quando algum ocidental insensato sugere que Israel deveria deixar de roubar terra árabe na Cisjordânia para suas colônias.

Na verdade, a própria reação de Tel Aviv aos importantes eventos no Egito – que este pode não ser o momento adequado para a democracia no Egito (permitindo assim manter o título de “a única democracia no Oriente Médio”) – tem sido tão inverossímil quanto contraproducente. Israel estará muito mais seguro rodeado por verdadeiras democracias do que por ditadores e reis autocráticos. Para seu enorme crédito, o historiador francês Daniel Lindenberg disse a verdade esta semana. “Devemos admitir a realidade: muitos intelectuais acreditam, no fundo, que o povo árabe é congenitamente atrasado”.

Não há nada de novo nisto. Aplica-se a nossos sentimentos recônditos sobre todo o mundo muçulmano. A chanceler Angela Merkel, da Alemanha, anuncia que o multiculturalismo não funciona, e um pretendente à família real da Baviera me disse, não faz muito tempo, que há turcos demais na Alemanha porque “não querem fazer parte da sociedade alemã”. No entanto, quando a Turquia – o mais perto da mistura perfeita de islamismo e democracia que se pode encontrar hoje no Oriente Médio – pede para ingressar na União Europeia e compartilhar nossa civilização ocidental, buscamos desesperadamente qualquer remédio, não importa quão racista seja, para evitar que isso aconteça.

Em outras palavras, queremos que sejam como nós, desde que fiquem de lado, a uma distância segura. E assim, quando provam que querem ser como nós, mas não querem invadir a Europa, fazemos o que podemos para instalar outro general treinado nos EUA para que os governe. Assim como Paul Wolfowitz reagiu à negativa do Parlamento turco em permitir que as tropas dos EUA invadissem o Iraque desde o Sul da Turquia perguntando se “os generais não tem nada a dizer sobre isso”, agora somos obrigados a ouvir o secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates, destacar a “moderação” do exército egípcio, aparentemente não se dando conta de que o povo do Egito, que está propondo a democracia, é que deveria ser elogiado por sua moderação e não violência e não um monte de brigadeiros.

De modo que, quando os árabes querem dignidade e respeito, quando gritam por seu próprio futuro que Obama assinalou em seu famoso – agora suponho que infame – discurso no Cairo, nos lhes faltamos com o respeito. Ao invés de dar as boas vindas às suas exigências democráticas, os tratamos como se fossem um desastre.

(*) De The Independent da Inglaterra, especial para Páginal12. Tradução: Celita Doyhambéhère. Tradução para a Carta Maior: Katarina Peixoto.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Quando as empresas preferem os ditadores à democracia

O Egito foi o segundo grande receptor de ajuda externa dos Estados Unidos durante décadas, depois de Israel (sem contar os fundos gastos nas guerras e ocupações do Iraque e Afeganistão). O regime de Mubarak recebeu cerca de 2 bilhões de dólares ao ano desde que assumiu o poder, em sua imensa maioria para as forças armadas. Onde foi parar esse dinheiro? Em geral, foi para empresas estadunidenses. O dinheiro vai para o Egito e logo volta para pagar aviões F-16, tanques M-1, motores de aviões, mísseis, pistolas e latas de gás lacrimogêneo. O artigo é de Amy Goodman.
“As pessoas levavam um cartaz que dizia ‘Para: Estados Unidos. De: Povo egípcio. Deixem de apoiar Mubarak. Ele acabou!” – dizia o twitter de meu valente colega e produtor em chefe de Democracy Now! Sharif Abdel Kouddous, desde as ruas do Cairo.

Mais de dois milhões de pessoas se manifestaram naquele dia em todo o Egito: a maioria delas inundaram a praça Tahrir, no Cairo. Tahrir, que significa “libertação” em árabe, se converteu no epicentro do que parece ser uma revolução em grande medida pacífica, espontânea e sem líderes no país mais povoado do Oriente Médio. Este incrível levante que desafio o toque de recolher militar, foi conduzido pelos jovens, que constituem a maior parte dos 80 milhões de habitantes do país. Twitter, Facebook e as mensagens de texto de telefones celulares ajudaram esta nova geração a vincular-se e organizar-se, apesar de viver há três décadas em uma ditadura apoiada pelos Estados Unidos. 

Em resposta, o regime de Mubarak, com a ajuda de empresas estadunidenses e europeias, cortou o acesso à Internet e restringiu o serviço de telefonia celular, deixando o Egito em uma situação de obscuridade digital. C.W. Anderson comentou a respeito de se o que estava ocorrendo no Oriente Médio era uma espécie de revolução do Twitter: “não é a tecnologia, mas sim as pessoas que fazem a revolução”.

As pessoas nas ruas exigem democracia e autodeterminação. Sharif viajou para o Egito à noite, em um terreno incerto. As odiadas forças de segurança do Ministério do Interior e a polícia de camisas negras leais ao presidente Hosni Mubarak estavam reprimindo e matando gente, prendendo jornalistas, quebrando e confiscando câmeras. No sábado pela manhã, Sharif se dirigiu à praça Tahrir. Apesar do bloqueio da internet e das mensagens de texto, Sharif, talentoso jornalista e gênio da tecnologia, achou rapidamente uma maneira de publicar mensagens no twitter desde a praça Tahrir: “Que cena assombrosa: estão passando três tanques carregados de gente que grita “Fora Hosni Mubarak!”.

O Egito foi o segundo grande receptor de ajuda externa dos Estados Unidos durante décadas, depois de Israel (sem contar os fundos gastos nas guerras e ocupações do Iraque e Afeganistão). O regime de Mubarak recebeu cerca de 2 bilhões de dólares ao ano desde que assumiu o poder, em sua imensa maioria para as forças armadas. Onde foi parar esse dinheiro? Em geral, foi para empresas estadunidenses. Pedi a William Hartung, da New America Foundation, que explicasse isso:

“É uma forma de bem estar empresarial para empresas como Lockheed Martin e General Dynamics, porque o dinheiro vai para o Egito e logo volta para pagar aviões F-16, tanques M-1, motores de aviões, todo tipo de mísseis, pistolas, latas de gás lacrimogêneo de uma empresa chamada Combined Systems International, cujo nome figura nas latas achadas nas ruas do Egito”.

Hartung acaba de publicar um livro, “Os profetas da guerra: Lockheed Martin e a criação do complexo militar industrial”. Continuou dizendo:

“Lockheed Martin encabeçou acordos de 3,8 bilhões de dólares nestes últimos dez anos; a General Dynamics de 2,5 bilhões para tanques; a Boeing de 1,7 bilhões para mísseis e helicópteros e a Raytheon para todo tipo de mísseis para as forças armadas. Então, basicamente este é um elemento fundamental destinado a manter o regime, mas grande parte do dinheiro se recicla. Os contribuintes poderiam simplesmente dar o dinheiro diretamente para a Lockheed Martin ou a General Dynamics”.

De maneira similar, a “chave geral” para bloquear a Internet e os telefones celulares no Egito foi ativada com a colaboração de empresas. A empresa Vodafone (gigante mundial da telefonia celular, proprietária de 45% das ações da Verizon Wireless nos Estados Unidos), com sede na Inglaterra, tentou justificar-se em um comunicado de imprensa: “Estava claro que Vodafone não tinha opções legais nem práticas, mas sim que devia satisfazer as exigências das autoridades”.

Narus, uma subsidiária da Boeing Corporation, vendeu equipamentos ao Egito para permitir uma “inspeção profunda de pacote” (DPI, em sua sigla em inglês), segundo Tim Karr, do grupo de política de mídia Free Press. Karr disse que a tecnologia da Narus “permite às empresas egípcias de telecomunicações ver as mensagens de texto dos telefones celulares e identificar o tipo de vozes dissidentes que existem. Também fornece ferramentas tecnológicas para localizar essas mensagens geograficamente e rastreá-las”.

Mubarak prometeu não se apresentar como candidato à reeleição em setembro. Mas o povo do Egito exige que ele saia agora. Como durou 30 anos? Talvez isso possa ser explicado melhor quando consideramos uma advertência feita por um general do exército dos EUA há 50 anos, o presidente Dwight D. Eisenhower, que disse: “Devemos tratar de evitar que o complexo militar-industrial adquira influência injustificada, seja ela buscada ou não”. Esse complexo mortal não é um perigo apenas para a democracia em nível nacional, mas também quando apoia déspotas no estrangeiro.

Tradução: Katarina Peixoto

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Eventos destacam escravidão no meio urbano e impunidade

O enfrentamento ao trabalho escravo em áreas urbanas e a chaga da impunidade foram foco de atividades especiais nesta semana
04/02/2011

Maurício Hashizume

O enfrentamento ao trabalho escravo em áreas urbanas e a chaga da impunidade foram foco de atividades especiais nesta semana temática por conta das variadas comemorações inspiradas pelo Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo (28 de janeiro).
Auditores fiscais do trabalho, integrantes de outros órgãos públicos, representantes do empresariado, de sindicatos e de organizações da sociedade civil estiveram presentes na audiência pública para tratar da exploração de mão de obra escrava no setor das confecções. Organizado no auditório da Superintendência Regional de Trabalho e Emprego de São Paulo (SRTE-SP), o encontro abordou a situação de imigrantes sul-americanos que movem milhares de oficinas de costura não só na metrópole, mas também em diversos outros pontos espalhados pelo estado mais rico do país. Na busca de alternativas à situação vulnerável em que vivem em seus países, vítimas estrangeiras são muitas vezes atraídas por esquemas criminosos que combinam tráfico de pessoas, trabalho forçado e outros delitos.
Entre os passos dados no sentido de combater esse tipo de violação dos direitos humanos fundamentais, os responsáveis pela fiscalização trabalhista destacaram especialmente os esforços para a responsabilização dos reais beneficiários da exploração do trabalho em condições análogas à escravidão de imigrantes, no bojo do Pacto Contra a Precarização e pelo Emprego e Trabalho Decentes em São Paulo - Cadeia Produtiva das Confecções.
Antes dessa investida nas cadeias produtivas, prevalecia uma tendência de enquadramento apenas dos donos de oficinas que atuam na ponta do processo.
Durante a audiência, o auditor fiscal Luis Alexandre Faria destacou a série de fiscalizações realizadas ao longo de 2010: desde o caso da oficina com imigrantes submetidos à escravidão que produzia peças para a rede varejista Marisa (e que também confecicionara anteriormente para a C&A), ocorrida em março, até a grande operação de 11 de agosto que culminou no flagrante de trabalho escravo na cadeia de suprimento da marca de moda jovem 775 e também na costura dos coletes utilizados pelos recenseadores do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Em dezembro do ano passado, o mesmo grupo da SRTE/SP atendeu denúncia de trabalho escravo urbano referente a outro setor econômico e libertou ainda dezenas de trabalhadores migrantes vindos do Nordeste que faziam a manutenção da linha férrea que liga Santos (SP) a Mairinque (SP), sob concessão da companhia América Latina Logística (ALL). Os empregados estavam alojados em precariedade extrema dentro de contêineres sem estrutura adequada em trecho isolado na Serra do Mar.
Uma das principais preocupações ao longo das fiscalizações, de acordo com Luís Alexandre, diz respeito à proteção das trabalhadoras e dos trabalhadores alcançados. A orientação adotada é a de evitar que as vítimas, que já tiveram de enfrentar um quadro de desumanidade, sejam punidas pela segunda vez por conta da situação migratória em que se encontram. O objetivo das ações, portanto, é garantir os direitos de cidadãos naturais de países como a Bolívia e o Paraguai - com os quais o Brasil mantém acordo de livre residência - conferindo a emissão da Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS) e corroborando para a regularização.
A equipe da SRTE/SP lançou a todos os participantes a ousada meta de trabalhar em conjunto para eliminar a escravidão no meio urbano até a Copa do Mundo de futebol de 2014, que terá o Brasil como anfitrião e a capital paulista como uma das cidades-sede.
A coordenação do Programa de Erradicação do Trabalho Escravo Urbano está a cargo da auditora fiscal do trabalho Giuliana Cassiano. Em explanação sobre o tema, ela lembrou que, além da legislação doméstica e das convenções e tratados internacionais relativas ao trabalho escravo, as operações de libertação de estrangeiros devem respeitar o Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas contra a Criminalidade Organizada Transnacional relativo à Prevenção, Repressão e Punição do Tráfico de Pessoas, em especial Mulheres e Crianças, mais conhecido como Protocolo de Palermo.
Giuliana sublinhou aspectos que caracterizam o trabalho análogo à escravidão - como o trabalho forçado, a restrição da liberdade, a jornada exaustiva, o trabalho degradante, a servidão por dívida e a retenção de documentos - e defendeu uma fiscalização cada vez mais integrada, que possa envolver diversos segmentos do Estado.
"Como a Defensoria Pública da União (DPU) defende o acesso à Justiça, não poderia ficar fora do combate ao trabalho escravo", comentou André Carneiro Leão, membro da entidade. A DPU em São Paulo esteve como parceira da SRTE/SP no caso Marisa e em mais uma operação no setor de confecções. Para ele, a intervenção da DPU não tem a intenção de apenas "judicializar" as ocorrências, mas de somar esforços para eliminar o problema.
Segundo números do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), mais de 39 mil pessoas foram libertadas em mais de 1 mil operações, no período de 1995 até 2010. As fiscalizações de repressão à escravidão vasculharam cerca de 2,8 mil fazendas e estabelecimentos. Ao todo, foram emitidas 21 mil guias de Seguro Desemprego do Trabalhador Resgatado e a reincidência de trabalhadores que são resgatados mais de uma vez é de 2%.
Radicada no Brasil, a advogada boliviana Ruth Camacho enfatizou a relevância da educação e da orientação necessárias para que pequenos empreendedores fragmentados e fragilizados na ponta da cadeia produtiva sejam plenamente informados acerca dos benefícios da formalização de seus negócios e da adoção dos padrões e normas trabalhistas vigentes. O testemunho de Ruth, que presta atendimento aos estrangeiros no Serviço Pastoral do Migrante (SPM), colocou em evidência a forma como muitos imigrantes são levados a pensar. Enquanto o caminho da legalidade é caro, complicado e desvantajoso, a clandestinidade tende a prometer o oposto: baixo custo, simplicidade e retorno garantido.
A solicitação de maior cuidado e investimento nas mediações entre essas pessoas que estão sujeitas à superexploração nas oficinas de costura e órgãos públicos como a Polícia Federal (PF) coube ao padre Mario Geremia, do CPM. Já Paulo Ylles, do Centro de Apoio ao Migrante (Cami), realçou que o Brasil ainda não ratificou a Convenção Internacional sobre os Direitos de Todos os Trabalhadores Migrantes e Membros de suas Famílias - aprovada pela Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) em 1990.
Paulo também citou a indefinição acerca dos casos omissos relacionados à abertura de anistia aos estrangeiros em situação ilegal, ocorrido em 2009. As entidades que atendem imigrantes são unânimes quanto à preocupação com relação à segunda fase do processo de anistia, que deve se encerrará no final deste ano. A PF tem exigido documentos e comprovações adicionais e complexas para a conversão de vistos temporários em permanentes.
O bloco dos empresários têxteis saudou as iniciativas conjuntas com o poder público e a sociedade civil com vistas ao combate ao trabalho escravo contemporâneo. Na perspectiva de Ronald Massijah, do Sindicato das Indústrias do Vestuário do Estado de São Paulo (SindiVestuário), o alto índice geral de informalidade pede políticas públicas de maior alcance (principalmente no campo econômico) que possam incentivar a massificação de boas práticas trabalhistas sem direcionamento para um ou outro setor.
A iniciativa privada tem a sua disposição diversas ferramentas para minar a continuidade da escravidão no país. Além do compromisso específico da cadeia produtiva de confecção idealizado e mantido pela SRTE/SP, companhias e associações podem fazer parte do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, que completou cinco anos em 2010 e visa isolar economicamente os empregadores que exploraram mão de obra escrava. Além disso, o suporte convicto e efetivo de industriais do setor urbano para a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 438/2001 - que confisca as terras de escravagistas - seria crucial para destravar a matéria, que aguarda votação do plenário na Câmara dos Deputados desde agosto de 2004.

Incentivo e protesto
No dia 28 de janeiro daquele mesmo ano, três auditores fiscais (Eratóstenes de Almeida Gonçalves, João Batista Soares Lage e Nelson José da Silva) e um motorista (Ailton Pereira de Oliveira) que estavam a serviço do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) foram assassinados numa emboscada durante fiscalização de rotina na área rural do município de Unaí (MG).
Para José Roberto de Melo, que atua à frente da SRTE-SP, o episódio que ficou conhecido como "Chacina de Unaí", apesar da tristeza pelas trágicas mortes, não foi capaz de impor medo aos auditores fiscais do trabalho. A violenta e covarde ofensiva contra os servidores, acrescentou José Roberto, reforçou a importância do trabalho desenvolvido e a indignação foi convertida em incentivo para a continuidade das inspeções.
Uma salva de palmas, convocada por José Roberto na audiência, foi dada em homenagem aos funcionários públicos assassinados da "Chacina de Unaí". As vítimas fatais de acidentes de trabalho, que continuam sendo contabilizadas em diversos segmentos ano após ano, também foram lembradas. Os cerca de 500 auditores fiscais que atuam no Estado de São Paulo são encarregados de para fiscalizar atividades que respondem por 42% da economia nacional.
Mais de 200 pessoas engrossaram ato público que cobrou o julgamento dos acusados pela "Chacina de Unaí", organizado pelo Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho (Sinait) e pela Associação dos Auditores Fiscais do Trabalho de Minas Gerais (AAFIT/MG), em Belo Horizonte (MG).
Com faixas, cartazes e camisetas denunciando os sete anos de impunidade, a manifestação em frente ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) contou com a participação de duas viúvas dos auditores que perderam a vida: Helba Soares, viúva de Nelson; e Genir Lage, viúva de João Batista.
Depois da derrubada de dois últimos recursos que tramitavam no Superior Tribunal de Justiça, o processo principal da "Chacina de Unaí" está pronto para voltar ao TRF-1 em Minas Gerais para que seja submetido a júri popular. São nove os acusados. Cinco deles, que teriam participado da execução do crime, estão presos. Indiciados como mandantes, os outros quatro permanecem em liberdade. Apenas o réu Antério Mânica teve seu processo desmembrado dos demais por ser prefeito de Unaí (MG) e ter direito a foro especial. Cinco mil balões brancos, que simbolizam a esperança de que o julgamento seja marcado com celeridade, foram soltos no ato.