quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Um ano de Doutrina Obama: desmonta-se a máscara do imperialismo



Hugo R C Souza


Em janeiro completa-se um ano de administração Obama no USA. A eleição do primeiro chefe ianque negro, conduzido ao comando da Casa Branca e do Pentágono como alternativa para o imperialismo em crise, bem como todo o rol de mistificações que giraram em torno do marketing da "mudança" adotado como lema de sua contra-propaganda enganosa, marcaram a ascensão da Doutrina Obama, estratagema grosseiro através do qual o imperialismo ianque, afundado na crise geral do capitalismo e na luta entre as potências pela repartilha do mundo, tenta se mascarar para as semicolônias
 Obama tomou posse no dia 20 de janeiro de 2009, e de lá para cá foram caindo por terra, uma a uma, as mentiras que compuseram toda a demagogia eleitoreira que o sistema montou para elegê-lo, do pacifismo de araque ao bom mocismo mais vulgar. Foram quase doze meses nos quais os acontecimentos concretos, os discursos de Obama e de seu séquito, e as atitudes de fato — e não o palavrório picareta — que partiram do imperialismo sob nova direção mostraram o que na verdade já se sabia: a nova administração ianque foi "eleita" porque os poderosos viram nela a cara (a rigor, a máscara) mais amena para gerir com truculência a crise capitalista. A verdadeira cara de Obama, entretanto, é algo que nem sequer um prêmio Nobel da Paz concedido para incrementar-lhe o disfarce conseguiu escamotear, porque as massas de muitas partes do mundo sabem bem que a única paz possível vinda do USA é a paz dos cemitérios.







No dia 5 de novembro de 2009, antes mesmo de tomar posse como novo chefe do imperialismo ianque, Obama deu o cartão de visitas de sua administração ao divulgar o primeiro nome da sua equipe. Na ocasião, nomeou para o cargo de chefe de gabinete do novo governo o sionista Rahm Emanuel, notório articulador do lobby pró-Israel dentro do USA. Sua escolha foi acertada ainda em julho do ano passado, em pleno processo farsesco de campanha eleitoral, em um conchavo entre o Partido Democrata e o Comitê USA-Sionista de Assuntos Públicos, a mais poderosa organização lobista que atua junto às instituições de Washington.



Velhos nomes no novo comando

Mas Rahm Emanuel seria apenas o primeiro rosto de um gabinete que, uma vez formado, refletiu a natureza continuísta da transição entre as administrações Bush e Obama. O novo chefe ianque foi dando a conhecer aos poucos os nomes com os quais se iria alinhavar a já não tão nova comissão de frente da coordenação imperialista. A exemplo da indicação de Rahm, os anúncios foram sendo feitos à medida que Obama fechava as negociações com facções da grande burguesia ianque.



Os tratos giravam em torno dos nomes de homens e mulheres que têm neles depositada a total confiança do complexo militar-industrial do USA, cujos chefes são quem realmente mandam na hora de formular as políticas de morte e assalto mediante as quais tentam se apoderar do mundo. Nomes que, uma vez negociados, logo depois eram apresentados pelo monopólio mundial dos meios de comunicação como idôneos e meritosos integrantes de uma equipe que, segundo as mentiras apregoadas aos quatro ventos, acabaria com as guerras promovidas pelo USA ao redor do mundo, promoveria a justiça e a igualdade entre os povos de planeta e refundaria a política sob as bases da humildade e da verdade.



Especialmente significativa foi a manutenção de Robert Gates na secretaria de Defesa do USA, cargo que este notório assassino já vinha exercendo sob as ordens de Bush. Além dele, Obama escolheu como secretária de Estado a antiga "primeira-dama" Hillary Clinton, demagoga de marca maior que votou a favor do massacre no Iraque quando era senadora e que manifestou o desejo de que o exército ianque aniquilasse o Irã. Isso sem contar a presença na administração Obama de Zbigniew Brzezinski, escolado mentor das políticas coloniais, e de outros quadros do imperialismo que compuseram administrações ianques pregressas, uma mais sanguinária do que a outra.



Aos poucos, aqueles que chegaram a nutrir alguma ilusão entenderam que todas as falsas expectativas criadas em torno da administração Obama — de cessar-fogo, justiça e retidão — não passavam de maquiagem para esconder a determinação para impor exatamente o contrário: mais chacinas, injustiças e inverdades.



Obama, investimento de Wall Street

Isto já estava muito claro desde meados de 2008, quando o comitê de campanha de Obama caminhava para bater o recorde de arrecadação por uma candidatura à chefia do imperialismo, como de fato aconteceu, com o Partido Democrata levantando no total US$ 750 milhões para promover o palavrório da "mudança", a demagogia do "nós podemos", e o rosto manso de pele escura que passaria a servir de máscara para as políticas racistas, genocidas e de rapinagem levadas pelo USA aonde quer que seus monopólios tenham negócios a tratar. Ali já era evidente que os poderosos já haviam escolhido Obama para salvar-lhe a pele ante as sucessivas demonstrações das massas de todo o mundo de repúdio às ingerências ianques.



Como recentemente observou a pesquisadora estadunidense Eva Golinger — que há anos denuncia a ingerência do USA na América Latina — Obama é um produto que venderam à "opinião pública", valendo-se da mais cara campanha publicitária da história. As doações somadas para a campanha eleitoreira de Obama estão entre os maiores "investimentos" que os bancos e especuladores que operam no mercado financeiro de Wall Street já fizeram. O retorno foi imediato: antes mesmo de se empoleirar na Casa Branca, Obama já se reunia com Bush para adiantar a maior transferência de recursos públicos para instituições capitalistas privadas da história do USA, sob a alegação que a saúde do sistema era necessária para manter o emprego do povo. O desemprego no USA, entretanto, bate atualmente nos níveis mais altos em vinte e seis anos e meio.



Além disso, Obama foi viabilizado como alternativa do imperialismo não apenas para disfarçar a violência dos mísseis, tanques, helicópteros e caças bombardeio, mas também para camuflar a violência econômica que se pratica nas semicolônias com a cumplicidade das gerências-fantoche de plantão. É neste sentido, o da cumplicidade nas políticas anti-povo, que se deve compreender a frase "esse é o cara" dirigida por Obama a Luiz Inácio no último mês de abril, durante a reunião do G20.



A farsa da "mudança de postura" do USA no mundo já estava muito clara desde quando Obama começou a receber demonstrações públicas de apoio entusiasmado de toda sorte de demagogos empenhados em projetos despolitizantes e cultivadores da doença do pacifismo. Eram atores de cinema, industriais metidos a filantropos, esportistas milionários que apareciam na TV pedindo voto para o Partido Democrata, a fim de que seu candidato tivesse a chance de promover a paz mundial. Naturalmente, falavam do tipo de paz que interessa aos invasores, agressores, ladrões e assassinos, aquela que exige a capitulação dos povos invadidos, agredidos, roubados e massacrados pelas potências imperialistas e coloniais.



Colonizar a Ásia Central, objetivo maior de Obama

Quanto ao Iraque, Obama havia prometido à população estadunidense que logo no início de sua administração começaria a colocar um fim ao que chama de "guerra" herdada de Bush. Na verdade, Obama vem dando sequência ao que de fato é uma criminosa invasão. O que começou com Bush e o assassinato humilhante do presidente Saddam Hussein continua com Obama, que prosseguiu com as chacinas de mulheres e crianças e acirrou os mecanismos de usurpação do patrimônio do povo iraquiano pelos conglomerados do setor de energia.



Na prática, houve apenas uma simulação de retirada dos soldados ianques de algumas das maiores cidades iraquianas, com a representação do Pentágono em Bagdá apenas remanejando tropas das regiões centrais das maiores cidades do país para as bases militares de bandeira invasora que ficam nos seus arredores. A decisão serviu apenas como tentativa de afirmação da Doutrina Obama; permaneceu a disposição e a orientação de rechaçar a resistência em favor do sossego das transnacionais. Fora isso, Obama deu sequência às encenações de estabelecimento de prazos para fazer seu exército retroceder e para transferir poderes para o governo títere local, colocado lá pelo USA e que continua respondendo aos burocratas e generais do império.



Obama também fechou questão no que se refere à identificação da Ásia Central como prioridade do imperialismo ianque, o que já vinha se delineando com clareza ainda durante a administração Bush. O alvo primordial é, mais especificamente, o Paquistão, em razão do fato de que este país desenvolveu armas nucleares e por ficar estrategicamente localizado em um dos mais explosivos palcos das guerras pela partilha do mundo, conflitos que se anunciam como consequência da severa crise geral de superprodução relativa do capitalista.



Afeganistão, soldados em massa para assassinatos em massa



Pode-se dizer que a crônica do primeiro ano de administração Obama foi a crônica de um esforço desesperado e desorientado para impedir a desmoralização completa e absoluta do exército ianque na Ásia Central. Logo depois de tomar posse, o chefe ianque nomeou o velho imperialista Richard Holbrooke seu enviado especial para o Paquistão e o Afeganistão.



Assassino de carreira, Holbrooke esteve envolvido na tentativa ianque de ocupação do Vietnã, e mais recentemente esteve na linha de frente da expansão para o Leste da Organização do Tratado do Atlântico Norte. Participou da grande ofensiva neocolonial nos Bálcãs, na qual a própria Otan arrasou aquelas terras em nome dos interesses estratégicos das potências, em um processo que culminou com a encenação de independência do Kosovo.



Para surpresa — ou falsa surpresa — daqueles que acreditaram mesmo — ou disseram acreditar — em uma revisão da vasta ofensiva neocolonial iniciada por Bush e batizada de "guerra contra o terror", Obama não tardou em conclamar os aliados a enviarem reforços para o front afegão, dadas as dificuldades que a máquina de guerra imperialista vem encontrando na região.



A primeira convocatória, dirigida à Otan, aconteceu no dia 4 de abril, e o USA foi prontamente atendido com o envio de mais cinco mil soldados para o Afeganistão. A mais recente aconteceu no último dia 1º de dezembro, quando o chefe ianque anunciou que mais 30 mil soldados viajarão para tentar dobrar a inquebrantável resistência popular. Neste dia, Obama disse: "O Afeganistão não está perdido", em um misto de reconhecimento da derrota iminente e de tergiversação para não reconhecer a iminência da derrota absoluta. Entre uma convocatória e outra, o Congresso ianque entregou a Obama US$ 100 bilhões para financiar guerras e ocupações.



A provocação em nome da dominação

Para sacramentar a certeza de que não passa de mais um chefe do imperialismo, como quaisquer de seus antecessores, e ainda que disfarçado de bom moço e de homem do povo, Obama manteve o campo de concentração de Guantánamo e vem cumprindo à risca a velha agenda do USA para a América Latina, região que permanece sendo encarada como "quintal" dos monopólios ianques a ser mantido sob controle por meio da intimidação militar velada e da cooptação de vende-pátrias da estirpe de Luiz Inácio.



Obama ainda se esmerou na demagogia nuclear, repetindo Bush ao apontar como ameaças os países aos quais este último já havia se referido como "eixo do mal". Assim, neste primeiro ano de chefia Obama, os ianques se fartaram de provocar a guerra com o Irã e a Coréia do Norte, tendo para isso contado com a prestimosa ajuda de Israel e Japão, respectivamente, em uma clara configuração dos blocos que mais cedo ou mais tarde irão se digladiar em mais uma guerra pela partilha do mundo.



Guerra esta que se torna uma realidade mais concreta à medida que o Nobel da Paz Obama reage com mais soldados embarcando desde o USA para tentar acudir o imperialismo nos lugares onde ele agoniza de forma mais evidente: onde as massas se organizam e se enchem de ânimo para resistir às ofensivas sanguinárias mal disfarçadas, muito mal disfarçadas atrás de falsos paladinos da democracia.

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